quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Médicos revelam que eutanásia é prática habitual em UTIs do país
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CLÁUDIA COLLUCCI
FABIANE LEITE
da Folha de S.Paulo
ANTÔNIO GOIS
da Folha de S.Paulo, no Rio

Apesar de ilegal, a eutanásia --apressar, sem dor ou sofrimento, a morte de um doente incurável-- é ato freqüente e, muitas vezes, pouco discutido nas UTIs de hospitais brasileiros. Dezesseis médicos ouvidos pela Folha confirmam que hoje o procedimento é comum e vêem a eutanásia como abreviação do sofrimento do doente e da sua família.

Entre eles, há quem admita razões mais práticas, como a necessidade de vaga na UTI para alguém com chances de sobrevivência, ou a pressão, na medicina privada, para diminuir custos.

Há nove anos, quando a "boa morte" foi proposta por meio de projeto de lei no Senado, houve debate, e médicos relataram com destaque o dia em que aliviaram o sofrimento de pacientes.

A proposta caducou, mas ainda discute-se o assunto por meio do projeto de reforma de Código Penal, que se arrasta na Câmara.

Nos conselhos regionais de medicina, a tendência é de aceitação da eutanásia, exceto em casos esparsos de desentendimentos entre familiares sobre a hora de cessar os tratamentos.

"Vamos deixá-lo descansar". É assim que o médico avisa a família e dá início ao fim do sofrimento, diz o infectologista Caio Rosenthal, um dos conhecidos defensores da eutanásia quando não há mais recursos de tratamento.

Médicos e especialistas em bioética defendem, na verdade, um tipo específico de eutanásia, a ortotanásia, que seria o ato de retirar equipamentos ou medicações que servem para prolongar a vida de um doente terminal. Ao retirar esses suportes de vida, mantendo apenas a analgesia e tranqüilizantes, espera-se que a natureza se encarregue da morte.

Difere, portanto, da chamada eutanásia ativa, em que há ação direcionada para matar, como a administração de um veneno, como em "Mar Adentro", do espanhol Alejandro Amenábar, concorrente ao Oscar de filme estrangeiro e que estreou neste fim de semana em São Paulo.

Para o patologista Marcos de Almeida, é hipocrisia negar que a eutanásia seja praticada em UTIs brasileiras, onde é freqüentemente utilizado um coquetel de sedativos batizado de M1. "É feito de monte. O doente está em fase terminal, não se beneficia mais com a analgesia, o médico vai e aumenta a dose de sedação. Isso tem um efeito tóxico e vai levar o paciente à morte."

Ainda segundo Almeida, professor de bioética da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a palavra eutanásia ficou estigmatizada, e as pessoas têm medo de usá-la. Ele acha necessário que uma legislação estabeleça critérios e condutas éticas para uma morte sem sofrimento. "A morte é um preço que merece ser pago para o alívio da dor", afirma.

Sem dúvida

Um médico intensivista de São Paulo que não quis se identificar relata que teve de tomar a decisão sobre a eutanásia durante um plantão, sozinho.

"Tínhamos um jovem de 18 anos baleado que precisava de terapia intensiva. A UTI estava lotada e havia um doente terminal mantido vivo graças a suporte tecnológico. Não tive dúvida." Ele diminuiu o nível do aparelho que fazia o paciente respirar de forma artificial. A pessoa morreu algumas horas depois.

O médico intensivista José Maria Orlando, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, porém, nega que a eutanásia seja freqüente nas UTIs.

De acordo com Orlando, hoje, com a tecnologia dos aparelhos de suporte de vida, como o respirador artificial, fica praticamente indefinido o tempo pelo qual é possível manter tecnicamente vivo um doente em estado terminal.

Em razão da eutanásia ser considerada crime, ele diz que os médicos ficam reticentes entre deixar que pacientes sobrevivam nessa condição ou retirá-los dela para que morram brevemente. "O médico se vê sob a espada da Justiça."

No Estado de São Paulo, uma lei sancionada pelo então governador Mário Covas estabelece o direito de um doente terminal recusar o prolongamento de sua agonia e optar pelo local da morte. Covas, que morreu com câncer na bexiga, beneficiou-se dessa lei.

Segundo Marco Segre, professor de ética da Faculdade de Medicina da USP, a tendência é de aceitação da eutanásia em situações de doenças incuráveis. "A tendência é de não manter a vida a todo custo. Mas não podemos ir contra a lei", afirma Segre.

Na opinião do padre Leo Pessini, especialista em bioética, a tecnologia existente nas UTIs transforma os pacientes terminais em "cadáveres vivos". Pessini foi durante 12 anos capelão do HC de São Paulo. Atendeu a centenas de pacientes terminais que diziam preferir uma morte digna.

Prolongar artificialmente a vida também tem um custo alto para o sistema público, carente de vagas na UTI. Orlando diz que há pelo menos um paciente terminal em cada uma das 1.440 UTIs do país.
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MARIA INÊS DOLCI

Saúde sem enganação
Ainda não chegou o dia em que o cidadão brasileiro poderá se tranqüilizar, na certeza de que a sua saúde e a educação de sua família estão em boas mãos. Bitributado nessas áreas, pois paga impostos, taxas e contribuições ao governo, e é obrigado a assumir contas de escolas particulares, de planos de saúde, de previdência privada, para chegar na velhice e ter um pouco mais do que o parco desembolso do INSS, o pobre do cidadão só é lembrado mesmo quando pedem seu voto.
O desabafo decorre da relação aflitiva e tumultuada vivenciada neste último ano pelos usuários de planos e seguros-saúde contratados antes de 1999. Tudo em decorrência de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que restringiu a aplicação da lei 9.656/ 98 para a solução de conflitos relativos a contratos assinados antes da lei. Até essa decisão, entendia-se que, como os contratos de planos de saúde têm longa duração e prazo indeterminado e tratam de assunto que é dever do Estado garantir, os direitos básicos introduzidos com a lei 9.656/98 deveriam se estender para os contratos antigos.
Essa decisão originou o Programa de Incentivo à Adaptação de Contratos (PIAC), os reajustes com patamares nas alturas, liminares na Justiça e até o boicote dos médicos, que se sentiram desrespeitados pelas empresas.
Mais recentemente, houve a insolvência da Interclínicas sem que nada fosse feito para evitar esse problema. O que fazer frente a tudo isso? Em primeiro lugar, defendemos que se retire o véu que recobre o tema saúde.
A saúde é um direito e não pode ser mercantilizada? Então que o governo use os impostos que pagamos para oferecer a todos os brasileiros excelente atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS). E que os planos de saúde sejam adquiridos pelos que desejarem um atendimento com mais conforto e privacidade.
Mas de que maneira o SUS receberia, do dia para a noite, digamos, a metade dos que têm planos de saúde? E como os atenderia, considerando que são de classe média, conhecem seus direitos e tentariam exercê-los?
Devemos dizer, ainda, que os planos de saúde são empresas privadas. E que, portanto, ou são lucrativos, ou quebram. Não adiantou criar uma falsa realidade, em que os serviços foram amplamente aumentados, com coberturas dos mais diversos procedimentos (alguns deles muito caros), com um tabelamento de preços e com coberturas referenciais defasadas em mais de uma década, o que impede que o consumidor tenha acesso a diversos avanços científicos no diagnóstico e no tratamento de doenças.
Não cabe à Agência Nacional de Saúde Suplementar tabelar preços desses serviços ao mesmo tempo em que amplia a cobertura de procedimentos, nivelando-os quase pelo teto. As autoridades, nesse caso, só têm três opções:
1. Assumir o atendimento, pelo SUS, de todos os brasileiros nos padrões a que os usuários de planos de saúde estão acostumados;
2. Ou reduzir os custos dessas operadoras, cortando impostos e eliminando a burocracia;
3. Ou, ainda, deixar o mercado definir quem continua e quem deixa esse segmento econômico.
Não haverá soluções mágicas. Seja qual for a escolha dos governantes e legisladores, terá de ser debatida com a sociedade.
A vantagem será a restauração da verdade na área de saúde. Caso contrário, continuaremos enfrentando essas crises.
E, em caso de falências de operadoras, o consumidor, que já paga impostos pela saúde mais o plano de saúde, poderá pagar, com a doença, a conta de uma saúde com enganação.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Blog do IHU
Fev|19
Poesia e linguagem em Giorgio Agamben
Por André Dick

Desde o lançamento de Homo sacer, o filósofo italiano Giorgio Agamben, nascido em Roma, em 1942, vem recebendo atenção no Brasil. Por meio de Profanações (Boitempo Editorial) e Estâncias: a palavra e o fantasma na cultura ocidental (Ed. UFMG), continua-se a sequência de lançamentos de títulos desse filósofo, a exemplo de A linguagem e a morte: um seminário sobre o lugar da negatividade, Infância e história: a destruição da experiência e a origem da história (ambos lançados pela UFMG), Estado de exceção e O que resta de Auschwitz (lançados pela Boitempo). Fixemo-nos, no entanto, nos livros que Agamben dedica mais a fazer uma interseção entre literatura e filosofia, ou seja, Profanações, Estâncias e Infância e história, o que fez Derrida entre o fim dos anos 1960 e meados dos 70. Nesse sentido, Agamben, como Derrida, é um autor limítrofe. Todos esses livros são múltiplos, mostrando uma obra em plena realização e não se delimitam ao campo em que Agamben está começando a ser mais inserido: no do direito, em razão, sobretudo, dos admiráveis Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I e de Estado de exceção, este continuando uma discussão já iniciada por Derrida em Força de lei, influenciado por Walter Benjamin. Ou seja, a procura, aqui, é pela ligação que Agamben, muito particularmente, faz da filosofia com a literatura – o que não pode ser totalizado, claro, com este breve texto.
Em Infância e história, Agamben comenta sobre uma possível destruição da experiência na vida moderna. No entanto, permite-se pensar que não há destruição da experiência para haver o inexperiancível, e sim outro tipo de experiência, talvez mais linguística ou talvez mais profana. A destruição não seria “morada do homem”, mas a sua saída. Por outro lado, pode-se pensar que a experiência de Baudelaire, por exemplo, é existencial e empírica, à medida que é linguística. Agamben recupera a ideia de que o sujeito da experiência era o “senso comum”, presente em cada indivíduo, e o sujeito da ciência é o “nous”, ou o intelecto agente, que é separado da experiência ‘impassível’ e ‘divina’”. Ou seja, “inteligência (nous) e alma (psyché) não são, de fato, para o pensamento antigo [...], a mesma coisa, e o intelecto não é, como nós estamos acostumados a pensar, uma ‘faculdade’ de alma: ele não lhe pertence de modo algum, mas ‘separado, impermisto, impassível’, segundo a célebre fórmula aristotélica, comunica-se com ela para realizar o conhecimento”. Em busca da certeza, nos diz Agamben, a ciência moderna abole tal separação e “faz da experiência o lugar [...] do conhecimento”. Agamben oferece como solução que o velho sujeito da experiência se duplicou, exemplificando Dom Quixote como velho sujeito do conhecimento e Sancho Pança como sujeito da experiência.

Sujeito e linguagem

Com isso, o filósofo italiano deseja afirmar que “é na linguagem e através da linguagem que o homem se constitui como sujeito”. Reavaliando Kant – um dos filósofos a que recorre –, Agamben escreve que o “transcendental não pode ser o subjetivo: a menos que o transcendental signifique simplesmente ‘linguístico’”. Daí ele procurar elementos que possam explicar que o sagrado está ligado ao profano, ou seja, o artista visto como uma espécie de representante da humanidade é uma figura do passado, e a linguagem de cada um pertence à comunidade com quem convive, observando que a infância instaura na linguagem a cisão entre língua e discurso, entre o semiótico e o semântico, entre o sistema de signos e o discurso. Isto significa que o sujeito da linguagem é fundamento da experiência e do conhecimento, e a origem transcendental da linguagem se localiza, portanto, na infância do homem, a pura língua do discurso humano. A ideia de uma infância como uma “substância psíquica” pré-subjetiva revela-se um mito, como aquela de um sujeito pré-linguístico. Isso porque, na visão de Agamben, infância e linguagem estão intrinsecamente ligadas, cada uma remete uma à outra em um círculo no qual a infância é a origem da linguagem e a linguagem a origem da infância, isto é, a infância em questão não assinala apenas um período, mas coexiste originalmente com a linguagem. A infância seria o inefável, a transcendência, o que ocorre nessa passagem do signo ao discurso.
Nesse sentido, percebe-se que sua interpretação sobre Leopardi e de autores gregos (em A linguagem e a morte), Baudelaire, Dante e Cavalcanti (em Estâncias) e da poesia moderna (em Infância e história), mostra um autor extremamente plural e voltado para o sentido da ética literária como um posicionamento poético, o que ele vai explorar em Homo sacer. Agamben, nesse sentido, é o oposto do Platão de A república, preocupado com a sanidade das pessoas em detrimento dos artistas e, sobretudo, dos poetas, sendo possível perceber que hoje a poesia é também uma espécie de homo sacer, que deve ser morto sem piedade em praça pública. Agamben, no entanto, prova que a perseguição é nefasta: não se pode, sobretudo, perseguir a linguagem, inerente ao ser humano. Ele é uma prova cabal de que a linguística, cada vez mais dominada por elementos afastados do poético, guarda o caminho para que a literatura também se manifeste por uma ética do discurso. Mas não se trata, segundo Agamben, de fazer com que os poetas passem a fazer obras de filologia e os filólogos a escreverem poesia, mas de que haja uma complementariedade.

Profanações

Em Profanações, com textos curtos, alguns quase em forma de fragmentos e de aforismos – no melhor estilo dos textos de Schlegel e Novalis, do romantismo de Iena, mas como uma visão menos ideológica, não percebendo o artista como salvador da humanidade –, Agamben continua a linha de Walter Benjamin e Michel Foucault ao propor a recuperação de uma modernidade situada na saturação de uma certa paisagem romântica. Agamben convida a profanar o sagrado, analisando a relação entre religião e capitalismo. Para ele, o profano é o que é restituído ao mundo dos homens, ao uso comum. Agamben observa que religio não deriva de religare (o que liga e une o humano e o divino), mas de “relegare”, indicando a “atitude de escrúpulo e de atenção que deve caracterizar as relações com os deuses, a inquieta hesitação (o “reler”) perante as formas – e as fórmulas – que se devem observar a fim de respeitar a separação entre o sagrado e o profano”. Desse modo, “religio” não é o que une homens e deuses, “mas aquilo que cuida para que se mantenham distintos”, havendo uma ligação entre as esferas do sagrado e do jogo, trazendo à cena o pensamento infantil. O jogo traz algo de sagrado, mas não sai da esfera do profano, o que remete à ligação e a constituição do homem na infância – na discussão proposta em Infância e história. Agamben avalia, baseado em Benjamin, que o capitalismo não representa apenas uma “secularização da fé protestante”, mas ele mesmo é um “fenômeno religioso, que se desenvolve de modo parasitário a partir do cristianismo”. No lugar da religião, que havia uma passagem do sagrado para o profano e do profano para o sagrado, o capitalismo institui o vazio do consumo, realizando a “pura forma da separação, sem mais nada a separar”: a religião capitalista “está voltada para a criação de algo Improfanável”. Ou seja, ela almeja o consumo absoluto, e, perdendo-se no vazio, faz com que o ser humano não consiga profanar esse mesmo consumo, e não se separe da ideia de que esse consumo é um fetiche.

Marx e Baudelaire

A avaliação que Agamben faz da religião capitalista guarda correspondência direta com a seção “No mundo de Odradek: a obra de arte frente à mercadoria”, de Estâncias, em que é traçado uma ponte entre Marx e Baudelaire, com seu fetiche pela mercadoria.
Para Agamben, a grandeza de Baudelaire foi ele transformar em mercadoria e em fetiche a própria obra de arte. A partir da ideia de que a poesia não tem outro fim senão ela mesma, Baudelaire imprime à obra de arte o valor de troca que possui a mercadoria. Desse modo, ele impôs à obra um caráter de mercadoria absoluta, cujo valor seria a inutilidade, ou seja, o Improfanável. A mercadorização absoluta da obra de arte.
A lição que Baudelaire deixou à poesia moderna “é que o único modo em superar a mercadoria consistia em levar ao extremo suas contradições, a ponto de ela acabar abolida enquanto mercadoria, com o objetivo de devolver o objeto à sua verdade”. A partir daí, ele avalia que como o sacrifício “restitui ao mundo sagrado o que o uso servir degradou e tornou profano, assim também, através da transfiguração poética, o objeto é arrancado tanto da fruição quanto da acumulação, e restituído ao seu estatuto original”. Esse estatuto serve como a própria descoberta da linguagem. O equívoco de Agamben parece ser de que a condição para esta tarefa sacrifical é o artista levar às últimas consequências o “princípio da perda e do desapossamento de si”. Agamben, a partir daí, incursiona constantemente na impessoalidade de fundo romântico, quando afirma: “Da mesma maneira que a obra de arte deve destruir e alienar a si própria para se tornar uma mercadoria absoluta, também o artista-dandy deve transformar-se em cadáver vivo, tendendo constantemente para um outro, uma criatura essencialmente não-humana e anti-humana”. Isto significa que o filósofo toma o caminho da impessoalidade no sentido do sublime, o que é sempre um risco, quando afirma que a poesia moderna “sinaliza para essa região inquietante, na qual já não existem nem homens nem deuses, e onde, como um ídolo primitivo, só se eleva incompreensivelmente além de si mesma uma presença que é, ao mesmo tempo, sagrada e miserável, fascinante e tremenda, uma presença que carrega consigo, contemporaneamente, a fixa materialidade do corpo morto e a fantasmática inapreensibilidade do ser vivo”. De qualquer modo, o que parece desumano ainda é linguístico e profano. Daí, neste caso, Agamben se contradizer, quando afirmar que há uma destruição da experiência na poesia moderna. A experiência, como vemos em Infância e história, continua sendo a descoberta constante da linguagem.

O panorama da melancolia

Em Estâncias, além disso, Agamben tenta desenhar – no que remete novamente a Walter Benjamin, em sua Origem do drama barroco alemão – novamente o panorama da melancolia. Para isso, parte de um clássico texto de Freud, “Luto e melancolia”. Agamben realiza essa recuperação do conceito de melancolia – sobretudo, sua concepção de sentimento condenatório, pela religião, que a via como a acídia, o enfraquecimento da alma e uma fuga ao divino – como que para estabelecer um diálogo com o conceito de “fantasma”, na análise que faz, sobretudo, da Vita nova de Dante. Nesse misto entre poesia e prosa, o poeta esquece que nunca possui Beatriz – mas lamenta sua perda. Essa perda do “fantasma” que nunca possuiu indica uma melancolia particular, uma imagem congelada remete aos textos de Agamben sobre a fotografia e, sobretudo, ao texto “O ser especial”, de Profanações, em que retoma a ideia, provinda de Dante e de Cavalcanti, de que o amor é como um “acidente em substância” – imagem, aliás, de Vita nova. A imagem – ou o fantasma da melancolia – “é gerada a cada instante de acordo com o movimento ou a presença de quem a contempla”. Para o filósofo italiano, “Entre a percepção da imagem e o reconhecer-se nela há um intervalo que os poetas medievais denominavam amor”. Ao se prolongar o intervalo “entre a percepção e o reconhecimento, a imagem é interiorizada como fantasma, e o amor recai na psicologia”. O “fantasma” remete à melancolia, que, por sua vez, indica a voz da morte, negativa, de A linguagem e a morte.



O fantasma da linguagem

Diante desse fantasma, não há um contato com a corporeidade, mas com a imagem, uma “nova pessoa”, “na qual se abolem os confins entre subjetivo e objetivo, corpóreo e incorpóreo, o desejo e seu objeto”. Com esta fantasia, surge o “espírito fantástico” A noção de fantasia, sob esse aspecto, é também lembrada num momento de Infância e história – indicando o inexperenciável. O que se destaca em Agamben é sua predileção por uma certa infância da linguagem, ideia extraída não só dos românticos e dos seus sucessores – Benjamin afirmava que o Adão havia sido o primeiro filósofo, e há na sua figura uma representação dessa infância a que Agamben se refere –, que coloca a vida como um jogo entre rito e linguagem. No último texto de Profanações, em que ganha relevo essa visualização benjaminiana, a profanação é vista como uma colocação dessa linguagem em plano comum. Não deixa de ser uma obsessão de Agamben, pois, em Infância e história, ele já recorria a essa infância da linguagem, mesmo no homem adulto, e em A linguagem e a morte, em que a voz é a representação negativa da morte, baseado numa leitura de Heidegger e Hegel. Mas, se para Heidegger a metafísica não acaba – como propôs seu continuador direto Derrida –, em Agamben ela se confunde à própria linguagem. É um tanto paradoxal que o mesmo autor que propõe um autor mais ligado à construção da linguagem, em Infância e história, fale, em Profanações, da figura do Gênio, que traria aquela impessoalidade apregoada por Schlegel e Novalis, entre outros românticos, tributária à concepção do sublime. No entanto, não é essa a ideia de Foucault, em que Agamben se baseia para produzir o texto “O autor do gesto”. O eu impessoal de Foucault esconde uma intertextualidade, na qual o próprio Agamben se insere. Ora, Agamben não é um gênio, e seus textos são tributários da própria tradição que ele quer levar adiante. Do mesmo modo, a ideia de “infância da linguagem”, embora poética, nunca chega a se concretizar, pois a modernidade é o período em que mais transparece a experiência negativa do autor, aquela que Agamben estuda como “voz” da morte em A linguagem e a morte. Logo, a experiência moderna não é impessoal como a romântica; pelo contrário: o panorama em que está inserida mostra a superação dessa ideia. O discurso de Agamben se situa, afinal, como observado, num ponto que navega entre a infância e o que resta dela no universo adulto. Para ele, a filosofia é um jogo de armar, explorando como Benjamin, o universo infantil. Nesse sentido, Agamben é um filósofo da infância, como se apresentou Benjamin em alguns de seus textos, a exemplo de “Livros infantis antigos e esquecidos”, “História cultural do brinquedo” e “Brinquedo e brincadeira. Observações sobre uma obra monumental”, os quais o italiano explora e complementa. A infância, para o filósofo, é o início da profanação da linguagem, ou seja, de sua descoberta, principalmente poética. Afinal, diz Agamben, “a linguagem é nossa voz, a nossa linguagem. Como agora falas, isto é a ética”. E a infância, sem dúvida, carrega o sentido de toda uma existência.

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sábado, 13 de fevereiro de 2010

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Aula 12 : A melhor história é aquela ouvida de quem fez a história. E achamos na Internet o relato em inglês da história da Internet pelos seus próprios idealizadores!

A Brief History of the Internet foi escrita por Barry M. Leiner, Vinton G. Cerf, David D. Clark, Robert E. Kahn, Leonard Kleinrock, Daniel C. Lynch, Jon Postel, Larry G. Roberts e Stephen Wolff. A tradução foi nossa (precisamos "colonizar" a Internet em português!). O texto é longo, detalhado, mas é uma pérola neste mar de conhecimento que é a Internet! Vejam abaixo.

Ah, e para quem quiser saber quando a Internet chegou ao Brasil, a melhor explicação pode ser encontrada no histórico da RNP, nossa Rede Nacional de Pesquisa, ok?

Introdução
A origem da Internet
Os conceitos iniciais da Internet
O teste das idéias
A transição para a infra-estrutura aberta
O papel da documentação
A formação da comunidade
A comercialização da tecnologia
A história do futuro

Introdução
A Internet tem revolucionado o mundo dos computadores e das comunicações como nenhuma invenção foi capaz de fazer antes. A invenção do telégrafo, telefone, rádio e computador prepararam o terreno para esta nunca antes havida integração de capacidades. A Internet é, de uma vez e ao mesmo tempo, um mecanismo de disseminação da informação e divulgação mundial e um meio para colaboração e interação entre indivíduos e seus computadores, independentemente de suas localizações geográficas.

A Internet representa um dos mais bem sucedidos exemplos dos benefícios da manutenção do investimento e do compromisso com a pesquisa e o desenvolvimento de uma infra-estrutura para a informação. Começando com as primeiras pesquisas em trocas de pacotes, o governo, a indústria e o meio acadêmico tem sido parceiros na evolução e uso desta excitante nova tecnologia. Hoje, termos como nome@nomedeempresa.com (ou nome@nomedeempresa.com.br, no caso do Brasil) e http://www.nomedeempresa.com (ou http://www.nomedeempresa.com.br, no caso do Brasil) são usados diariamente por milhões de pessoas.

Nesta análise, muitos de nós envolvidos com o desenvolvimento e a evolução da Internet dão suas visões sobre as origens e a história da Internet. A história envolve quatro aspectos distintos:


a evolução tecnológica que começou com as primeiras pesquisas sobre trocas de pacotes e a ARPANET e suas tecnologias, e onde pesquisa atual continua a expandir os horizontes da infra-estrutura em várias dimensões como escala, desempenho e funcionalidade de mais alto nível;

os aspectos operacionais e gerenciais de uma infra-estrutura operacional complexa e global;

o aspecto social que resultou numa larga comunidade de internautas trabalhando juntos para criar e evoluir com a tecnologia;

e o aspecto de comercialização que resulta numa transição extremamente efetiva da pesquisa numa infra-estrutura de informação disponível e utilizável.
A Internet hoje é uma larga infra-estrutura de informação, o protótipo inicial do que é frequentemente chamado a Infra-Estrutura Global ou Galáxica da Informação. A história da Internet é complexa e envolve muitos aspectos - tecnológicos, organizacionais e comunitários. E sua influência atinge não somente os campos técnicos das comunicações via computadores mas toda a sociedade, na medida em que usamos cada vez mais ferramentas online para fazer comércio eletrônico, adquirir informação e operar em comunidade.

A origem da Internet
Os primeiros registros de interações sociais que poderiam ser realizadas através de redes foi uma série de memorandos escritos por J.C.R. Licklider, do MIT - Massachussets Institute of Technology, em agosto de 1962, discutindo o conceito da "Rede Galáxica". Ele previa vários computadores interconectados globalmente, pelo meio dos quais todos poderiam acessar dados e programas de qualquer local rapidamente. Em essência, o conceito foi muito parecido com a Internet de hoje. Licklider foi o primeiro gerente do programa de pesquisa de computador do DARPA, começando em outubro de 1962. Enquanto trabalhando neste projeto, ele convenceu seus sucessores Ivan Sutherland, Bob Taylor e Lawrence G. Roberts da importância do conceito de redes computadorizadas.

Leonard Kleinrock, do MIT, publicou o primeiro trabalho sobre a teoria de trocas de pacotes em julho de 1961 e o primeiro livro sobre o assunto em 1964. Kleinrock convenceu Roberts da possibilidade teórica das comunicações usando pacotes ao invés de circuitos, o que representou um grande passo para tornar possíveis as redes de computadores. O outro grande passo foi fazer os computadores se conversarem. Em 1965, Roberts e Thomas Merrill conectaram um computador TX-2 em Massachussets com um Q-32 na California com uma linha discada de baixa velocidade, criando assim o primeiro computador de rede do mundo. O resultado deste experimento foi a comprovação de que computadores poderiam trabalhar bem juntos, rodando programas e recuperando dados quando necessário em máquinas remotas, mas que o circuito do sistema telefônico era totalmente inadequado para o intento. Foi confirmada assim a convicção de Kleinrock sobre a necessidade de trocas de pacotes.

No final de 1966, Roberts começou a trabalhar no DARPA para desenvolver o conceito das redes computadorizadas e elaborou o seu plano para a ARPANET, publicado em 1967. Na conferência onde ele apresentou este trabalho, houve também uma apresentação sobre o conceito de redes de pacotes desenvolvida pelos ingleses Donald Davies e Roger Scantlebury, da NPL-Nuclear Physics Laboratory. Scantlebury conversou com Roberts sobre o trabalho da NPL e do trabalho de Paul Baran e outros em RAND. O grupo do projeto RAND tinha escrito um trabalho sobre o papel das redes de trocas de pacotes para voz segura quando serviam militarmente em 1964. O que se percebeu então é que os trabalhos desenvolvidos no MIT (1961-67), RAND (1962-65) e NPL (1964-67) estavam se desenrolando em paralelo sem que nenhum dos pesquisadores soubesse dos outros trabalhos. A palavra "pacote" foi adotada do trabalho desenvolvido no NPL e a velocidade de linha proposta para ser usada no projeto da ARPANET foi upgraded de 2,4 Kb para 50 Kb.

Em agosto de 1968, depois de Roberts e o grupo do DARPA terem refinado a estrutura e especificações para a ARPANET, uma seleção foi feita para o desenvolvimento de um dos componentes-chave do projeto: o processador de interface das mensagens (IMP). Um grupo dirigido por Frank Heart (Bolt Beranek) e Newman (BBN) foi selecionado. Paralelamente ao trabalho do grupo da BBN nos IMPs com Bob Kahn assumindo um papel vital do desenho arquitetônico da ARPANET, a topologia e economia da rede foi desenvolvida e otimizada por Roberts em conjunto com Howard Frank e seu grupo da Network Analysis Corporation, e sistema de mensuração da rede foi preparado pelo pessoal de Kleinrock na UCLA -University of California at Los Angeles.

Devido à teoria de trocas de pacotes de Kleinrock e seu foco em análise, desenho e mensuração, seu Centro de Mensuração de Rede da UCLA foi escolhido para ser o primeiro nó (ponta) da ARPANET. Isso aconteceu em setembro de 1969, quando BBN instalou o primeiro IMP na UCLA e o primeiro servidor de computador foi conectado. O projeto chamado Aumento do Intelecto Humano, de Doug Engelbart, que incluía NLS (um precursor dos sistemas de hipertexto), no SRI-Stanford Research Institute, foi o segundo nó ou ponta. SRI passou a manter as tabelas de "Host Name" para o mapeamento dos endereços e diretório do RFC. Um mês depois, quando SRI foi conectado à ARPANET, a primeira mensagem entre servidores foi enviada do laboratório de Kleinrock para o SRI. Dois outros "nodes" foram acrescentados então: a UC Santa Barbara e a Universidade de Utah. Este dois nós incorporavam projetos de aplicações visuais, com Glen Culler e Burton Fried na UCSB investigando métodos de uso de funções matemáticas para restaurar visualizações na rede e Robert Taylor e Ivan Sutherland em Utah investigando métodos de representação em terceira dimensão na rede. Assim, no final de 1969, quatro servidores estavam conectados na ARPANET e, mesmo naquela época, os trabalhos se concentravam tanto na rede em si como no estudo das possíveis aplicações da rede. Esta tradição continua até hoje.

Computadores foram rapidamente adicionados à ARPANET nos anos seguintes e os grupos de trabalho desenvolveram um protocolo servidor a servidor funcionalmente completo e outros softwares de rede. Em dezembro de 1971, o Network Working Group (NWG) gerenciado por S. Crocker, concluiu o primeiro protocolo servidor a servidor da ARPANET, chamado Network Control Protocol (NCP). De 1971 a 1972, os usuários da rede finalmente puderam começar a desenvolver as suas aplicações. Em outubro de 1972, Kahn organizou uma grande e bem sucedida demonstração sobre a ARPANET na Conferência Internacional de Comunicação entre Computadores (ICCC). Esta foi a primeira demonstração pública da nova tecnologia de rede para o público. Foi também em 1972 que o correio eletrônico, considerado a primeira aplicação "hot", foi introduzido. Em março de 1972, Ray Tomlinson, da BBN, escreveu o software básico de e-mail com as funções de "send/enviar" e "read/ler", motivado pela necessidade dos desenvolvedores da ARPANET de ter um fácil mecanismo de coordenação. Em julho, Roberts expandiu a utilidade do e-mail escrevendo o primeiro programa utilitário de e-mail para listar, ler seletivamente, arquivar, encaminhar e responder a mensagens. Dali, o correio eletrônico se tornou a maior aplicação de rede por mais de uma década. Este foi o prenúncio do tipo de atividade que vemos hoje na WWW hoje, ou seja, o enorme crescimento de todos os tipos de aplicações e utilitários agregados pessoa-a-pessoa.

Os conceitos iniciais da Internet
A ARPANET original cresceu e se tornou a Internet. A Internet foi baseada na idéia de que haveria múltiplas redes independentes de desenho arbitrário, começando com a ARPANET como rede pioneira de trocas de pacotes mas logo incluindo redes de satélites, de rádio, etc. A Internet como conhecemos hoje incorpora uma idéia-chave: rede de arquitetura aberta. Nesta abordagem, a opção pela tecnologia de qualquer rede individual não é ditada por nenhuma arquitetura de rede particular e sim escolhida livremente pelo provedor, que a torna capaz de entrar em rede com outras redes pela "Arquitetura de Internetworking". Até aquele período, havia apenas um método para agregar redes: a tradicional troca de circuitos onde redes se interconectavam no nível do circuito, passando bits individuais em base síncrona por um circuito ponta a ponta entre duas localidades. Lembre que Kleinrock tinha mostrado em 1961 que troca de pacotes era um método mais eficiente. Condições específicas de interconexão entre redes era outra possibilidade. Enquanto havia outras formas limitadas de interconectar redes, todas requeriam que uma fosse componente da outra, ao invés de agirem como companheiras no oferecimento do serviço ponta a ponta. Numa rede de arquitetura aberta, as redes individuais podem ser separadamente desenhadas e desenvolvidas e cada uma pode ter sua interface própria que pode ser oferecida a usuários e outros provedores. Cada rede pode ser desenhada de acordo com o ambiente e os requerimentos dos seus usuários. Não há restrições em relação aos tipos de redes que podem ser incluídas numa área geográfica, apesar de algumas considerações pragmáticas ditarem o que é razoável oferecer.

A idéia de redes de arquitetura aberta foi primeiro introduzida por Kahn em 1972. Este trabalho foi parte de um programa de pacotes de rádio, mas depois se tornou um programa em separado. Naquele tempo, o programa foi chamado "Internetting". NCP não tinha a habilidade de endereçar redes e máquinas além da destinação IMP da ARPANET e portanto deveria ser mudado. NCP se amparava na ARPANET para prover confiabilidade de ponta a ponta. Se qualquer pacote fosse perdido, o protocolo e qualquer aplicação que ele suportasse iria simplesmente parar a transferência de dados. Nesse modelo, NCP não tinha controle de erro ponta a ponta, uma vez que pensava-se que a ARPANET seria a única rede em existência e ela seria tão confiável que nenhum controle de erro seria necessário por parte dos servidores. Então Kahn decidiu desenvolver uma nova versão do protocolo que iria satisfazer as necessidades de um ambiente de redes de arquitetura aberta. Este protocolo iria eventualmente ser chamado Transmission Control Protocol/Internet Protocol (TCP/IP). Enquanto NCP agia como um driver de equipamento, o novo protocolo seria mais um protocolo de comunicações.

Quatro regras foram críticas para a idéia de Kahn:


cada rede distinta deveria ser independente e mudanças internas não deveriam ser requisitadas para conectá-las à Internet;

comunicações seriam na base do melhor esforço. Se um pacote não chegasse à sua destinação final, ele seria retransmitido da fonte;

caixas pretas seriam usadas para conectar as redes. Mais tarde elas seriam chamadas gateways e roteadores. Os gateways não reteriam informações sobre os fluxos de pacotes passantes. Isso assegurou que eles se mantivessem simples, evitando adaptações complicadas e recuperações de erros;

não haveria controle global no nível operacional.
Outros itens avaliados foram os seguintes:


algorítmos para prevenir perda de pacote de comunicações desabilitadas, capacitando-os a serem retransmitidos da fonte;

provimento de "pipelining" de servidor a servidor, de forma que múltiplos pacotes poderiam ser roteados da fonte ao destino à vontade dos servidores participantes, se redes intermediárias o permitissem;

funções de gateway (porta de entrada) para encaminhar os pacotes apropriadamente. Isso incluiria cabeçalhos de IP para roteamento, interfaces dirigidas, quebra de pacotes em pedaços menores (caso necessário), etc;

a necessidade de checagens ponta a ponta, recuperação dos pacotes de fragmentos e detecção de duplicatas;

a necessidade do endereçamento global;

técnicas de controle de fluxo servidor a servidor;

interfaces com vários sistemas operacionais;

eficiência da implementação, performance entre as redes, etc.
Kahn começou a trabalhar na série orientada às comunicações dos princípios do sistema operacional enquanto na BBN, e documentou alguns dos seus pensamentos num memorando interno chamado "Princípios de Comunicações para Sistemas Operacionais". Neste ponto, ele percebeu que seria necessário aprender os detalhes de implementação de cada sistema operacional para ter a chance de embutir neles novos protocolos de uma forma eficiente. Assim, na primavera de 1973, depois de começar o projeto "internetting", Kahn chamou Vint Cerf (então trabalhando em Stanford) para trabalhar com ele no desenho detalhado do protocolo. Cerf tinha se envolvido intimamente com o desenho e desenvolvimento do NCP original e já tinha o conhecimento em interfacing com os sistemas operacionais existentes. A abordagem arquitetônica para a comunicação de Kahn e a experiência em NCP de Cerf possibilitaram a construção do que se tornou TCP/IP.

O trabalho de Kahn e Cerf foi altamente produtivo e a primeira versão escrita da teoria resultante foi distribuída numa reunião especial do International Network Working Group (INWG), que tinha sido definido numa conferência da Sussex University em setembro de 1973. Cerf tinha sido convidado para dirigir este grupo e usou a ocasião para realizar o encontro do INWG. Algumas teses básicas surgiram da colaboração entre Kahn e Cerf:


comunicação entre dois processos deveria consistir logicamente de uma longa corrente de bytes (que eles chamaram de octets). A posição de qualquer octet na corrente seria usada para identificá-lo;

o controle do fluxo seria feito usando janelas e corrediças e acks. O destino poderia selecionar quando seria efetuado o reconhecimento e cada ack retornado seria cumulativo para todos os pacotes recebidos;

foi deixado em aberto como a fonte e o destino iriam concordar nos parâmetros das janelas a serem usadas. Padrões foram usados inicialmente;

apesar de a Ethernet (sistema de redes que transporta sinais (bits) para todos os microcomputadores em rede) estar em desenvolvimento em Xerox PARC naquele tempo, a proliferação de LANs (redes locais) não era prevista, muito menos a proliferação de PCs (computadores pessoais) e estações de trabalho. O modelo original foi redes nacionais como a ARPANET, que se pensava não iriam existir muitas como ela. Então um IP de 32 bits foi usado, dos quais os primeiros 8 bits indicavam a rede e os restantes 24 bits designavam o servidor na rede. Esta hipótese de que 256 redes seriam suficientes para o futuro próximo passou necessariamente a ser reconsiderada quando LANs começaram a aparecer no final da década de 1970.
O trabalho original de Cerf e Kahn sobre a Internet descreveu um protocolo chamado TCP, que provia todo o transporte e serviços de encaminhamento na Internet. Kahn queria que o protocolo suportasse uma série de serviços de transporte, desde a entrega sequenciada de dados totalmente confiável (modelo de circuito virtual) até o serviço de datagram, onde a aplicação fazia uso direto do serviço básico de rede, o que poderia implicar em pacotes ocasionalmente perdidos, corrompidos ou reordenados. Entretanto, o esforço inicial para implementar TCP resultou numa versão que somente permitiu circuitos virtuais. O modelo funcionou bem para transferência de arquivos e aplicações de logins remotos, mas alguns dos trabalhos em aplicações avançadas como pacotes de voz mostraram que, em alguns casos, a perda de pacotes deveria ser corrigida pela aplicação e não pelo protocolo TCP. Isso levou a uma reorganização do TCP original em dois protocolos: o simples IP que provia apenas o endereçamento e o roteamento dos pacotes individuais e o TCP em separado, que se preocupava com o controle do fluxo e a recuperação de pacotes perdidos. Para as aplicações que não queriam os serviços de TCP, uma alternativa chamada User Datagram Protocol (UDP) foi adicionada para prover acesso direto ao serviço básico de IP.

Uma grande motivação inicial para a ARPANET e para a Internet foi o compartilhamento de recursos. A conexão das duas redes foi muito mais econômica do que a duplicação de caros computadores. Entretanto, enquanto a transferência de arquivos e o login remoto (Telnet) foram aplicações muito importantes, o correio eletrônico teve o impacto mais significativo das inovações daquela época. O correio eletrônico ou e-mail criou um novo modelo no qual as pessoas poderiam se comunicar e mudou a natureza da colaboração, primeiro na construção da própria Internet e mais tarde na sua utilização por grande parte da sociedade.

Outras aplicações foram propostas nos dias iniciais da Internet, incluindo comunicação de voz (precursora da telefonia via Internet), vários modelos de compartilhamento de arquivos e discos, e os primeiros programas que mostraram o conceito de agentes (e vírus..). Um conceito-chave da Internet é que ela não é desenhada para apenas uma aplicação, mas é uma infra-estrutura genérica na qual novas aplicações podem ser concebidas, como aconteceu com a World Wide Web. Foi e é a natureza do serviço provido pelos protocolos TCP e IP que tornam isso possível.

O teste das idéias
DARPA fez três contratos para Stanford (Cerf), BBN (Ray Tomlinson) e UCL (Peter Kirstein) implementarem TCP/IP (que foi simplesmente chamado TCP no trabalho de Cerf/Kahn, mas que continha ambos os componentes). A equipe de Stanford, liderada por Cerf, produziu uma detalhada especificação e, em um ano, haviam três implementações independentes de TCP que poderiam operar em conjunto. Este foi o começo de longa experimentação e desenvolvimento a fim de evoluir e amadurecer os conceitos e a tecnologia da Internet. Começando com as três primeiras redes (ARPANET, Packet Radio e Packet Satellite) e suas comunidades iniciais de pesquisa, o ambiente experimental cresceu para incorporar essencialmente qualquer forma de rede e grande comunidade de pesquisa e desenvolvimento. E, com cada expansão, novos desafios surgiram.

As primeiras implementações de TCP foram feitas por sistemas como Tenex e TOPS 20. Quando os microcomputadores apareceram, alguns acharam que TCP foi grande e complexo demais para rodar neles. David Clark e seu grupo de pesquisa no MIT trabalharam para mostrar que poderia haver uma simples e compacta implementação de TCP. Eles produziram esta implementação, primeiro para o Xerox Alto (a primeira estação de trabalho pessoal desenvolvida em Xerox PARC) e depois para o IBM PC. Esta implementação foi completamente inter-operável com outros TCPs, mas foi feita sob medida para microcomputadores, e mostrou que estações de trabalho, tanto quanto sistemas de grande porte, poderiam tornar-se parte da Internet. Em 1976, Kleinrck publicou o primeiro livro sobre ARPANET, com ênfase na complexidade dos protocolos e nas dificuldades que eles introduzem. Este livro foi importante na divulgação da crença nas redes com trocas de pacotes para uma grande comunidade.

O desenvolvimento generalizado de LANs, PCs e estações de trabalho na década de 80 permitiu a prosperidade da Internet que nascia. A tecnologia Ethernet, desenvolvida por Bob Metcalfe em 1973 na Xerox PARC é agora provavelmente a tecnologia de rede dominante na Internet e os PCs e estações de trabalho são os computadores dominantes. A mudança entre poucas redes com pequeno número de servidores (o modelo original ARPANET) e muitas redes resultou num número de novos conceitos e mudanças na tecnologia básica. Primeiro, isso resultou na definição de três classes de rede (A, B e C) para acomodar o alcance das redes. A classe A passou a representar redes de grande escala nacional (pequeno número de redes com grande número de servidores). A classe B passou a representar redes de escala regional. E a classe C passou a representar redes locais (grande número de redes com relativamente poucos servidores).

Uma grande mudança ocorreu como resultado do aumento da escala da Internet e os assuntos gerenciais associados. Para facilitar o uso da rede, nomes foram atribuídos a servidores para que não fosse necessário lembrar endereços numéricos. Originalmente, o número de servidores foi limitado e, portanto, foi possível manter uma tabela única de todos os servidores e seus nomes e endereços. A mudança para o grande número de redes independentemente gerenciadas (por exempo, LANs) significou o fim da tabela única de servidores, e o Domain Name System (DNS) foi inventado por Paul Mockapetris, da USC/ISI. O DNS permitiu um mecanismo escalarmente distribuído para resolver nomes de servidores hierárquicos (por exemplo, www.acm.org) num endereço Internet.

O crescimento da Internet também desafiou a capacidade dos roteamentos. Originalmente existiu um único algorítmo distribuído para roteamento que foi implementado uniformemente por todos os roteadores na Internet. Quando explodiu o número de redes na Internet e o desenho inicial de roteamento não expandiu o suficiente, este foi substituído por um modelo hierárquico de roteamento com um Interior Gateway Protocol (IGP) usado dentro de cada região da Internet e um Exterior Gateway Project (EGP) usado para ligar as regiões. Este desenho permitiu que diferentes regiões usassem diferentes IGPs, de forma que diferentes requerimentos de custo, rápida configuração, robustez e escala pudessem ser acomodados. Não apenas o algorítmo de roteamento mas também o tamanho das tabelas de endereçamento acentuaram a capacidade dos roteamentos. Novas abordagens para agregação de endereço, em particular roteamento entre domínios sem classe (CIDR) foram introduzidas para controlar o tamanho das tabelas de roteamento. Um dos maiores desafios foi como propagar as mudanças para o software, particularmente o software do servidor. DARPA dava suporte à UC Berkeley para investigar modificações para o sistema operacional Unix, inclusive incorporando o TCP/IP desenvolvido em BBN. Apesar de Berkeley ter mais tarde reescrito o código para torná-lo mais adequado ao sistema Unix, a incorporação do TCP/IP no Unix BSD foi crítica para a dispersão dos protocolos na comunidade de pesquisa. Muitos da comunidade de pesquisa da ciência da computação já haviam começado a usar Unix BSD no seu dia-a-dia e a estratégia de incorporar protocolos Internet no sistema operacional da comunidade de pesquisa foi um dos elementos-chave do larga e bem-sucedida adoção da Internet.

Um dos mais interessantes desafios foi a transição do protocolo de servidor da ARPANET de NCP para TCP/IP em 01/01/1983. Foi uma transição imediata, requisitando todos os servidores em conversão simultânea (ou então passariam a se comunicar via mecanismos específicos). A transição foi cuidadosamente planejada pela comunidade por anos antes e foi muito fácil no dia em que realmente aconteceu (mas teve como consequência a distribuição de "buttons" dizendo "Eu sobrevivi à transição para o TCP/IP").

O protocolo TCP/IP tinha sido adotado como padrão de defesa três anos antes, em 1980. Tal fato levou diretamente à eventual divisão entre comunidades militar e não militar. Em 1983, ARPANET estava sendo usada por um número significante de organizações de pesquisa e desenvolvimento e de operações da defesa. A transição da ARPANET do protocolo NCP para o protocolo TCP/IP permitiu a divisão entre a MILNET, que passou a suportar os requisitos operacionais, e a ARPANET, que passou a suportar as necessidades de pesquisa.

Portanto, em 1985, a Internet já estava bem estabelecida como uma larga comunidade de suporte de pesquisadores e desenvolvedores e começava a ser usada por outras comunidades para comunicações diárias pelo computador. O correio eletrônico já estava sendo usado por muitas comunidades, frequentemente com sistemas diferentes, mas a interconexão entre os diferentes sistemas de de correio foi demonstrando a utilidade de comunicação eletrônica entre as pessoas.

A transição para a infra-estrutura aberta
Ao mesmo tempo em que a tecnologia Internet estava sendo experimentalmente validada e largamente utilizada por um conjunto de pesquisadores da ciência da computação, outras redes e tecnologias de rede estavam sendo criadas. A utilidade das redes computadorizadas - especialmente o correio eletrônico - demonstrada por DARPA e pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos não foi perdida em outras comunidades e disciplinas, e, ainda na década de 1970, redes começaram a aparecer em qualquer lugar que dispusesse de fundos e recursos para isso. O Departamento de Energia dos Estados Unidos estabaleceu a MFENet para seus pesquisadores em energia de fusão magnética e a HEPNet para o grupo de física de alta energia. Os físicos espaciais da NASA seguiram com a SPAN, e Rick Adrion, David Farber, and Larry Landweber estabeleceram a CSNET para a comunidade acadêmica e industrial da Ciência da Computação com um subsídio inicial da NSF-National Science Foundation. A livre disseminação do sistema operacional Unix na AT&T resultou na USENET, baseada no protocolo de comunicação UUCP incluído no Unix, e, em 1981, Ira Fuchs e Greydon Freeman projetaram a BITNET, que ligou os computadores acadêmicos num paradigma do tipo "correio eletrônico como imagens de cartão".

Com a exceção da BITNET e da USENET, estas primeiras redes (incluindo ARPANET) tinham sido construídas para um objetivo específico, isto é, elas foram criadas para, e largamente restritas a, comunidades fechadas de acadêmicos. Havia pouca pressão para que as redes individuais fossem compatíveis e, na verdade, elas não eram. Mais ainda, tecnologias alternativas estavam sendo procuradas pelo segmento comercial, incluindo XNS da Xerox, DECNet e SNA da IBM. Restou à inglesa JANET (1984) e à U.S. NSFNET (1985) programas para explicitamente anunciar seus intentos de servirem à comunidade educacional, não importando a disciplina. Mais, a condição para universidades americanas receberem fundos do NSF era que "a conexão deveria estar disponível para todos os usuários qualificados no campus".

Em 1985, Dennis Jennings, da Irlanda, passou um ano na NSF liderando o programa da NSFNET. Ele trabalhou com a comunidade para ajudar a NSF a tomar uma decisão crítica: que TCP/IP iria ser mandatório para o programa da NSFNET. Quando Steve Wolff chegou à NSFNET em 1986, ele reconheceu a necessidade por uma infraestrutura de rede maior para suportar as comunidades acadêmicas e de pesquisa, além da necessidade de desenvolver uma estratégia para estabelecer esta infra-estrutura independentemente dos recursos federais. Políticas e estratégias foram adotadas para atingir este fim.

NSF também decidiu suportar a infra-estrutura organizacional da Internet da DARPA já existente, hierarquicamente arranjada pelo então Internet Activities Board (IAB). A declaração pública desta opção foi a autoria conjunta pelo grupo de Engenharia e Arquitetura da Internet da IAB e pelo grupo de Assessoria Técnica de Rede da NSF do RFC 985 - Requirements for Internet Gateways, que formalmente assegurou a interoperabilidade entre DARPA e NSF.

Em adição à seleção do TCP/IP para o NSFNET, agências federais norte-americanas fizeram e implementaram várias outras decisões políticas que definiram a Internet de hoje, como segue:


Agências federais norte-americanas dividiram o custo da infra-estrutura, como os circuitos transoceânicos. Elas também apoiaram os pontos de interconexão para o tráfego entre agências. Federal Internet Exchanges (FIX-E e FIX-W) construídas com este objetivo serviram como modelos para os pontos de acesso da rede e facilidades "*IX" que são características proeminentes da arquitetura Internet de hoje;

Para coordenar esta participação, foi formado o Federal Networking Council (Conselho Federal de Redes). The FNC cooperou com organizações internacionais como o RARE na Europa, através do Comitê de Pesquisa Intercontinental, para coordenar o apoio da comunidade mundial de pesquisa à Internet;

Esta participação e cooperação entre agências em assuntos relacionados à Internet tem uma longa história. Um acordo sem precedentes realizado em 1981 entre Farber, representando a CSNET e a NSF, e Kahn, representando a DARPA, permitiu à CSNET compartilhar a infra-estrutura da ARPANET numa base estatística;

Similarmente, a NSF encorajou redes regionais (inicialmente acadêmicas) da NSFNET a buscar clientes comerciais, expandir seus estabelecimentos para serví-los e explorar as resultantes economias de escala para baixar os custos de subscrição para todos;

No backbone da NSFNET, o segmento de escala nacional da NSFNET, NSF fez cumprir uma política (Acceptable Use Policy - AUP) que proibiu o uso do backbone para objetivos que não fosssem de suporte à Pesquisa e à Educação. O resultado predizível e desejado do encorajamento de tráfego comercial nos níveis local e regional, enquando proibindo seu acesso ao backbone nacional, foi estimular a emergência e o crescimento de redes privadas e competitivas (como PSI, UUNET, ANS CO+RE e outras mais tarde). Este processo de aumento de redes privadas e auto-financiadas para usos comerciais foi iniciado em 1988 numa série de conferências promovidas pela NSF em Harvard's Kennedy School of Government sob o título "A Comercialização e Privatização da Internet" e na lista "com-priv" da rede;

Em 1988, o comitê do Conselho Nacional de Pesquisa norte-americano, dirigido por Kleinrock e com Kahn e Clark como membros, produziu um relatório autorizado pela NSF entitulado "Em Direção a uma Rede Nacional de Pesquisa". Este relatório influenciou o então Senador Al Gore e anunciou as redes de alta velocidade que se tornariam a fundação para a superhighway da informação do futuro;

Em 1994, o comitê do Conselho Nacional de Pesquisa norte-americano, novamente dirigido por Kleinrock e novamente com Kahn e Clark como membros, produziu um novo relatório autorizado pela NSF entitulado "Fazendo Idéia do Futuro da Informação: a Internet e Além". Neste documento, a superhighway da informação foi articulada e tópicos críticos como direitos da pripriedade intelectual, ética, preços, educação, arquitetura e regulamentação da Internet foram discutidos;

A política de privatização da NSF culminou em abril de 1995, com o fim do subsídio ao backbone da NSFNET. Os fundos recuperados foram competitivamente redistribuídos para redes regionais para compra de conectividade nacional das agora numerosas redes privadas.
O backbone fez a transição entre a rede construída de roteadores da comunidade de pesquisa para equipamentos comerciais. Em seus oito anos e meio, o backbone cresceu de seis nodes com links de 56 Kb para 21 nodes com múltiplos links de 45 Mb. A Internet cresceu para mais de 50 mil redes em todos os sete continentes, com aproximadamente 29 mil redes apenas nos Estados Unidos.

Tal foi o peso do ecumenismo e dos recursos da NSFNET (US$ 200 milhões entre 1986 e 1995) e a qualidade dos protocolos, que em 1990, quando a ARPANET foi desautorizada, TCP/IP tinha suplantado e marginalizado os demais protocolos de rede, e IP estava também se tornando o serviço de sustentação da infra-estrutura da informação global.

O papel da documentação
A chave para o rápido crescimento da Internet tem sido o livre e aberto acesso aos documentos básicos, especialmente as especificações dos protocolos.

Os inícios da ARPANET e da Internet na comunidade acadêmica de pesquisa promoveu a tradição acadêmica de publicação de idéias e resultados. Entretanto, o ciclo normal da publicação acadêmica tradicional era formal e devagar demais para a dinâmica troca de idéias na criação das redes. Em 1969, um passo importante foi tomado por S. Crocker, então na UCLA, estabelecendo série de notas relativas a "Request for Comments" (RFC, ou, traduzindo, Solicitação de Comentários). Estas notas ou memorandos seriam uma forma rápida de distribuição de observações no compartilhamento de idéias com outros pesquisadores. A princípio, os RFCs eram impressos e distribuídos pelo correio tradicional. Quando o File Transfer Protocol (FTP, significando protocolo de transferência de arqruivos) começou a ser usado, os RFCs se tornaram arquivos online acessados via FTP. Agora, claro, os RFCs são facilmente acessados via web em dezenas de sites no mundo. O SRI- Stanford Research Institute, no papel de Centro de Informação de Redes, manteve os diretórios online. Jon Postel atua até hoje como editor dos RFCs, bem como gerente da administração centralizada de número de protocolo.

O efeito dos RFCs foi criar um círculo positivo de retornos, com idéias e propostas apresentadas em um RFC gerando outro RFC com mais idéias, e daí por diante. Quando algum consenso (ou pelo menos uma série consistente de idéias) era atingido, um documento com as especificações era então preparado. Estas especificações seriam então usadas como base para implementações pelas várias equipes de pesquisa.

Com o tempo, os RFCs se tornaram mais focados nos padrões de protocolo ( as especificações oficiais), apesar de ainda existir RFCs informativos que descrevem abordagens alterantivas ou provêem informações antecedentes sobre protocolos e engenharia. Os RFCs são agora vistos como documentos de registro nas comunidades de engenharia e padrões da Internet. O acesso aberto aos RFCs (grátis, se você tem qualquer tipo de conexão com a Internet) promove o crescimento da Internet porque permite que especificações reais sejam usadas como exemplos em classes universitárias e por empreendedores desenvolvendo novos sistemas.

O correio eletrônico tem sido essencial em todas as áreas da Internet, e especialmente no desenvolvimento das especificações dos protocolos, padrões técnicos e engenharia da Internet. OS RFCs mais antigos apresentaram um conjunto de idéias desenvolvidas por pesquisadores de um determinado lugar para o resto da comunidade. Depois que o e-mail ou correio eletrônico começou a ser utilizado, o padrão de autoria mudou - os RFCs eram apresentados por co-autores com uma visão comum, independentemente de suas localizações.

O uso de listas de discussão especializados tem por muito tempo sido usado no desenvolvimento das especificações de protocolo e continua a ser uma ferramente importante. O IETF tem agora mais de 75 grupos de trabalho, cada um trabalhando num aspecto diferente da engenharia da Internet. Cada um desses grupos tem uma lista de discussão para trocar idéias sobre documentos em desenvolvimento. Quando o consenso é atingido num rascunho, o documento é então distribuído como um RFC.

Como o rápido crescimento da Internet é acelerado pelo entendimento da sua capacidade de promover o compartilhamento de informações, nós deveríamos entender que o primeiro papel da rede foi permitir o compartilhamento da informação sobre seu próprio desenho e operação através dos RFC. Este método único para a evolução de novas capacidades da rede continuará a ser crítico na evolução futura da Internet.

A formação da comunidade
A Internet representa tanto uma coleção de comunidades como uma coleção de tecnologias, e seu sucesso é largamente atribuído à satisfação das necessidades básicas da comunidade e à utilização efetiva da comunidade na expansão da sua infra-estrutura. O espírito da comunidade tem uma longa história, começando com a ARPANET. Os pesquisadores da antiga ARPANET trabalharam numa comunidade fechada para conseguirem fazer as demonstrações iniciais da tecnologia de transferência de pacotes descrita anteriormente. Da mesma forma, vários outros programas de pesquisa da ciência da computação promovidos pela DARPA (Packet Satellite, Packet Radio e outros) foram fruto de atividades cooperadas que usavam pesadamente qualquer mecanismo disponível para coordenar seus esforços, começando com o correio eletrônico e acrescentando compartilhamento de arquivos, acesso remoto e WWW. Cada um dos programas formou um grupo de trabalho, começando com o Grupo de Trabalho de Rede da ARPANET. Por conta do papel da ARPANET na infra-estrutura de suporte a vários programas de pesquisa, e com a evolução da Internet, o Grupo de Trabalho de Rede se tornou o Grupo de Trabalho da Internet.

No final da década de 70, reconhecendo que o crescimento da Internet foi acompanhado pelo crescimento em tamanho da comunidade de pesquisa interessada na Internet e que, portanto, havia uma necessidade maior de mecanismos de coordenação, Vint Cerf, então gerente do Programa Internet da DARPA, formou vários grupos de coordenação:


um Conselho de Cooperação Internacional (ICB-Internet Cooperation Board), presidido por Peter Kirstein da UCL, para coordenar as atividades com alguns países europeus envolvidos no programa Packet Satellite;

um Grupo de Pesquisa Internet (Internet Research Group), para prover um ambiente para a troca geral de informações sobre a Internet;

e um Conselho de Controle de Configuração da Internet (ICCB-Internet Configuration Control Board), presidido por Clark. O ICCB iria assessorar Cerf na gerência da florescente Internet.
Em 1983, quando Barry Leiner passou a gerenciar o programa de pesquisa da Internet na DARPA, ele e Clark reconheceram que o crescimento contínuo da comunidade Internet demandava uma reestruturação dos mecanismos de coordenação. O ICCB foi então substituído por forças-tarefa, cada uma focalizando uma área particular da tecnologia (roteamentos, protocolos ponta-a-ponta, etc.). O IAB, então chamado Internet Activities Board ou Conselho de Atividades Internet, foi então formado com os presidentes das forças-tarefa. Foi uma coincidência que esses presidentes fossem os mesmos do antigo ICCB e Dave Clark continuou a presidí-lo. Depois de algumas mudanças no IAB, Phill Gross se tornou o presidente da revitalizada IETF-The Internet Engineering Task Force (Força-Tarefa da Engenharia da Internet), naquele tempo apenas uma das forças-tarefa do IAB. Em 1985 então, houve um tremendo crescimento no lado prático/da engenharia da Internet. Este crescimento resultou na explosão dos comparecimentos nas reuniões do IETF, e Gross teve que criar uma sub-estrutura do IETF na forma de grupos de trabalho.

Este crescimento foi complementado por uma grande expansão da comunidade. DARPA então tinha deixado de ser o maior financiador da Internet. Além da NSFNet e de várias atividades financiadas pelos governos americano e internacionais, o segmento comercial começou a se interessar pela Internet. Também em 1985 Kahn e Leiner deixaram a DARPA que não vinha conseguindo manter seu ritmo de atividades Internet. Como resultado, o IAB perdeu seu patrocinador e progressivamente assumiu o papel de líder na Internet.

O crescimento da Internet continuou, resultando em nova sub-estruturação do IAB e do IETF. O IETF combinou Grupos de Trabalho em Áreas, e designou Diretores de Áreas. Um Grupo Diretivo de Engenharia da Internet ou a IESG- Internet Engineering Steering Group foi formado com Diretores de Áreas. A IAB reconheceu a crescente importância do IETF e reestruturou o processo de padrões para explicitamente reconhecer o IESG como o grupo principal de revisão para os padrões. O IAB também foi reestruturado de forma que o resto das forças-tarefa (outras além do IETF) fossem combinadas numa Força-Tarefa de Pesquisa Internet ou IRTF- Internet Research Task Force, presidida por Postel, com as outras forças-tarefa renomeadas como Grupos de Pesquisa.

O crescimento do setor comercial trouxe uma crescente preocupação em relação ao próprio processo de standards Internet. A Internet tinha crescido muito além de suas raízes primárias de pesquisa, passando a incluir uma grande comunidade de usuários e atividades comerciais cada vez maiores. O processo deveria ser aberto e justo. Esta preocupação, acompanhada da necessidade reconhecida de suporte da comunidade da Internet, eventualmente levou à formação da Internet Society em 1991, com o patrocínio da CNRI-Corporation for National Research Initiatives de Kahn e a liderança de Cerf, então com a CNRI.

Em 1992, outra reorganização foi feita de forma a reorganizar o IAB e renomeá-lo Internet Architecture Board (ou Conselho de Arquitetura da Internet) e a colocá-lo sob o comando da Internet Society. Uma relação de mesmo nível foi definida entre o novo IAB e i IESG, com o IETF e o IESG tendo uma maior responsabilidade na aprovação dos standards. Principalmente, uma relação cooperativa e mutuamente apoiadora foi formada entre o IAB, o IETF e a Internet Society, com a Internet Society tomando como objetivo a provisão do serviço e outras medidas que iriam facilitar o trabalho do IETF.

O recente desenvolvimento e uso da World Wide Web (WWW) formou uma nova comunidade, já que muitos dos que trabalham com a WWW não são pesquisadores ou desenvolvedores. Uma nova organização coordenadora foi formada então: o W3C-World Wide Web Consortium. Inicialmente liderado pelo laboratório para a Ciência da Computação do MIT, por Tim Berners-Lee (o inventor do WWW) e Al Vezza, W3C tomou a responsabilidade de evoluir com vários protocolos e padrões associados com a Web.

Assim, através das duas décadas da Internet, nós temos visto uma estável evolução das estruturas organizacionais desenhadas para suportar e facilitar uma sempre crescente comunidade trabalhando colaborativamente em assuntos ligados à Internet.

A comercialização da tecnologia
A comercialização da Internet envolveu não somente o desenvolvimento de serviços privados e competitivos mas também produtos comerciais implementando a tecnologia Internet. Nos anos 80, dezenas de vendedores incoporaram TCP/IP em seus produtos porque viram compradores para aquele modelo de rede. Infelizmente, eles não tiveram informação sobre como a tecnologia trabalhava e como os clientes planejavam usá-la. Muitos a viram como um add-on que deveria ser adicionado às suas soluções proprietárias de redes: SNA, DECNet, Netware, MetBios. O Departamento de Defesa americano tinha autorizado o uso de TCP/IP em muitas de suas compras mas tinha dado pouca orientação aos seus vendedores em relação a como construir produtos TCP/IP de utilidade.

Em 1985, devido à falta de informação e à falta de apropriado treinamento, Dan Lynch e o IAB realizaram um workshop para "todos" os vendedores para que eles pudessem aprender como TCP/IP funcionava e que problemas ainda tinha. Os palestrantes vieram em sua maioria da comunidade de pesquisa da DARPA, que tinha desenvolvido os protocolos e os usavam diariamente. Cerca de 250 representantes de vendedores ouviram 50 inventores e experimentadores. Os resultados foram surpresas em ambos os lados: os vendedores ficaram impressionados em como os inventores eram tão abertos sobre como as coisas funcionavam (ou não) e os inventores ficaram felizes em ouvir sobre novos problemas que eles não tinham considerado mas que estavam sendo descobertos pelos vendedores. Desta forma, uma saudável discussão em mão-dupla foi formada, discussão esta que tem durado por mais de uma década.

Depois de dois anos de conferências, tutoriais, encontros e workshops, um evento especial foi organizado e para o qual foram convidados os fabricantes de produtos que rodavam TCP/IP bem o suficiente para se reunirem por 3 dias e mostrar o quanto eles trabalhavam bem juntos - e também para examinarem a Internet. Em setembro de 1988, o primeiro Interop trade show foi realizado. 50 empresas expuseram e 5.000 engenheiros de corporações consideradas clientes potenciais vieram ao trade show para ver se tudo funcionava como prometido. E funcionou! Por que? Porque os fabricantes trabalharam duro para assegurar que os produtos de todos operariam com todos os outros produtos, mesmo aqueles dos seus competidores. O Interop trade show tem crescido imensamente desde então e hoje é realizado anualmente em sete locais no mundo, com uma audiência de quase 250 mil pessoas que querem aprender sobre os últimos produtos lançados e discutir a mais recente tecnologia da interoperabilidade.

Paralelamente aos esforços de comercialização que foram salientados, os fornecedores começaram a participar dos encontros do IETF, realizados 3 ou 4 vezes ao ano para discutir novas idéias para extensões do TCP/IP protocol suite. De poucas centenas de acadêmicos presentes e pagos pelo governo, os encontros do IETF agora reúnem milhares de representantes de fornecedores e são pagos pelos próprios participantes. O grupo auto-selecionado envolui o TCP/IP numa mutuamente cooperativa maneira. Isto é muito útil, já que o grupo é bem diversificado, envolvendo pesquisadores, usuários finais e fabricantes.

A gerência da rede é um exemplo da interação entre a comunidade de pesquisa e a comunidade comercial. No começo da Internet, a ênfase era definir e implementar protocolos que atingiam a interoperabilidade. Quando a rede cresceu, ficou claro que procedimentos específicos usados para gerenciar a rede não mais serviriam. A configuração manual de tabelas foi substituída pela distribuição de algorítmos automatizados e ferramentals melhores foram criadas para isolar falhas. Em 1987, ficou também claro que seria necessário um protocolo que permitisse que os elementos da rede, como roteadores, fossem remotamente gerenciados, uniformemente. Vários protocolos foram então propostos, incluindo o SNMP - Simple Network Management Protocol (Procolo de Gerência de Rede Simples, desenhado para a simplicidade e derivado de uma proposta anterior chamada SGMP), o HEMS (um design mais complexo da comunidade de pesquisa) e o CMIP (da comunidade OSI). Uma série de encontros levou à decisão de que o HEMS seria desconsiderado como candidato para resolver a disputa, mas que o trabalho em ambos o SNMP e o CMIP prosseguiria, com a idéia de que o SNMP poderia ser uma solução de curto prazo e o CMIP uma solução de mais longo prazo. O mercado iria escolher o que achasse mais adequado. O SNMP é agora usado quase universalmente como gerência de rede.

Nos últimos anos, temos visto uma nova fase da comercialização. Originalmente, esforços comerciais eram dirigidos aos vendedores que proviam os produtos básicos da rede e aos provedores que ofereciam conectividade e serviços básicos da Internet. A Internet agora se tornou quase uma "commodity" e muita atenção tem sido dada recentemente ao uso de sua estrutura global de informação para suportar outros serviços comerciais. Isto tem sido tremendamente acelerado pela rápida adoção dos browsers e da tecnologia Web, permitindo aos usuários acessar a informação linkada em qualquer lugar do globo. Produtos estão disponíveis para facilitar a provisão desta informação e muito dos últimos desenvolvimentos em tecnologia tem sido no sentido de permitir cada vez mais sofisticados serviços de informação no topo da base das comunicações de dados da Internet.

A história do futuro
As previsões para o futuro da Internet serão vistas na nossa Aula 13. Vamos lá!




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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Eles utilizaram humanos como cobaias de pesquisas macabras. Agora estudos dizem que essas experiências guardam informações valiosas para a humanidade


Por Rodrigo Rezende, da Alemanha



Camarada, por favor, peça ao oficial que acabe conosco com uma bala", suplicou o soldado russo. Depois de 3 horas dentro de um tanque de água gelada, ele já não suportava mais a sensação de congelamento no corpo. "Não espere compaixão daquele cão fascista", respondeu o colega que dividia o tanque com ele. Quando o cientista responsável pelo experimento descobriu o significado das palavras de suas cobaias, retirou-se para o escritório. Voltou com um revólver na mão. Não para atender ao pedido do soldado, mas para ameaçar seus assistentes na experiência. "Não se intrometam. Nem se aproximem deles!" Passaram-se mais duas horas de agonia antes que o alívio da morte chegasse para os russos. Assim como eles, pelos menos outros 300 prisioneiros dos nazistas foram usados em experimentos destinados a entender os efeitos do frio no corpo humano - a hiportermia. A maioria não teve a sorte de um final rápido. Ao chegarem ao limite entre a vida e a morte, eram reanimados e expostos novamente a temperaturas baixas.



As descrições acima são apenas um exemplo de como alguns cientistas alemães se adaptaram ao ideário nazista sob o governo de Adolf Hitler. E não deixam qualquer dúvida de que, eticamente, a ciência produzida na Alemanha entre as décadas de 1930 e 1940 foi repugnante. Os experimentos causaram dor, humilhação e mortes terríveis às pessoas confinadas em campos de concentração - fossem elas judias, ciganas, homossexuais ou qualquer tipo de inimigo do regime. Acontece que os responsáveis por essas "pesquisas" podiam ser sádicos, mas não eram leigos. Pelo contrário. Muitos foram formados nas escolas mais tradicionais do planeta - antes da chegada dos nazistas ao poder, a Alemanha era um dos líderes mundiais em inovação científica. Metódicos como só pesquisadores alemães podem ser, eles sistematizaram as experiências, coletaram dados, chegaram a conclusões. E geraram informações que, além de inéditas na época, nunca mais foram reproduzidas em testes sérios - afinal de contas, e ainda bem, não é todo dia que aparece alguém propondo jogar ácido na pele de um ser humano para entender como nosso corpo reage à substância.



As pesquisas sobre hipotermia, por exemplo, além de matar centenas de prisioneiros do campo de Dachau, produziram dados que existem até hoje - e que alguns cientistas gostariam de usar em pesquisas atuais. O médico Robert Pozos, diretor do Laboratório de Hipotermia da Universidade de Minnesota, nos EUA, é um deles. Ele estuda como nosso corpo responde ao frio para descobrir a melhor maneira de reanimar pessoas que cheguem quase congeladas aos hospitais. Mas o trabalho de Pozos enfrenta um sério problema: muitas de suas pesquisas não podem ser concluídas, pois há risco de morte quando a temperatura dos voluntários do estudo cai abaixo de 36 ºC. A única fonte conhecida de dados sobre seres humanos nessas condições são os experimentos nazistas. É ético utilizá-los com o intuito de salvar vidas? Pozos respondeu que sim. Em seguida, viu a New England Journal of Medicine, uma das mais respeitadas revistas médicas do mundo, se recusar a publicar a pesquisa.



E você, o que faria se estivesse no lugar de Pozos? Para enfrentar essa delicada questão, é necessário encarar o extenso legado científico que o nazismo deixou. Até há pouco tempo, esse universo era bastante desconhecido. Estudos recentes, porém, lançaram nova luz em direção ao que sabemos sobre a ciência no período. Afinal, houve experimentos de qualidade no nazismo? O que acontece com a ciência sob um regime tão desumano?



Ciência e nazismo



Planície de Ypres, fronteira entre Bélgica e França, 17 h do dia 22 de abril de 1915, Primeira Guerra Mundial. Entrincheirados, soldados do Exército francês observam, atônitos, um inimigo desconhecido se aproximar. Alguns compreendem logo que é impossível combatê-lo e batem em retirada. Outros permanecem parados, sem saber o que fazer. Não têm idéia de como lutar contra o oponente mais letal que já enfrentaram: uma espessa nuvem verde-amarelada, de 1,5 m de altura.



Dez minutos antes de a arma mortal varrer o ar, uma tropa que parecia saída de um filme de ficção científica havia tomado a dianteira do Exército alemão. O Pionierkommando 36 era um batalhão formado por cientistas com uniforme militar e máscaras protetoras, liderados por nada menos que um ganhador do Prêmio Nobel de Química, o alemão Fritz Haber. Ao sinal de Haber, foram abertos 730 cilindros, com 100 quilos cada um, de gás cloro em forma líquida. Assim nasceu a nuvem que, carregada pelo vento, partiu em direção à tropa inimiga, corroendo pulmões e cegando. Quando a bruma esverdeada se dissipou, os únicos integrantes do Exército aliado que permaneceram incólumes em seus postos foram 50 canhões. O saldo de estréia do novo gênero de combate: 10 mil mortos e 5 mil feridos.



A qualidade dos cientistas envolvidos no projeto científico-militar alemão dá a dimensão da importância e complexidade da parceria. Fritz Haber, por exemplo, foi responsável por uma descoberta que não só permitiu à Alemanha prolongar a Primeira Guerra, mas hoje nos permite produzir alimento para 6 bilhões de pessoas: a técnica de fixação da amônia a partir do nitrogênio do ar serviu tanto à criação de explosivos quanto ao desenvolvimento de fertilizantes baratos. Otto Hahn, outro laureado com o Nobel que liderou um ataque com gás, foi um dos descobridores do processo de fissão nuclear, que é usado em bombas atômicas, mas também em usinas de energia. "O Exército alemão se convenceu de que a ciência desenvolveria armas superiores, que compensariam as restrições à produção de armamento impostas pelo Tratado de Versalhes", diz o pesquisador do Instituto Max Planck, Helmut Maier. "Após a guerra, a elite científica levou o país à liderança nos ramos de balística, química, aviação e construção de foguetes."



Veterano da Primeira Guerra, Adolf Hitler conhecia bem o poder dessa ciência militar - ele chegou a ser internado com cegueira temporária após um ataque com gás nos campos de batalha. E sabia que, caso alcançasse o poder, faria da ciência um dos pilares da nova Alemanha.



Mas o interesse do führer trazia um problema. Ele podia até admirar a ciência, mas não entendia nada do assunto. "Hitler não era devidamente instruído em ciência. Ele apenas seguia seu instinto, seu feeling", diz o historiador alemão Joachim Fest, um dos mais importantes biógrafos do líder nazista. Na cúpula nazista, a situação não era melhor. Heinrich Himmler, segundo homem na hierarquia, mandava cientistas investigar a relação entre os canhotos e a homossexualidade ou pesquisar a genealogia dos cavalos dos antigos reis nórdicos. "Himmler era a verdadeira encarnação da pseudociência", diz Michael Kater, autor de Doctors Under Hitler ("Doutores de Hitler", sem tradução em português).



Naturalmente, Hitler não via problema nessas idéias. Na verdade, ele se considerava um cientista de vanguarda - era um entusiasmado adepto da teoria da higiene racial, doutrina "científica" que prega a eliminação dos genes não arianos do povo alemão. Em seu livro Mein Kampf ("Minha Luta"), de 1925, ajudou a disseminar uma metáfora bastante útil para o progresso da nova doutrina: "O povo alemão é um só corpo, mas a sua integridade está ameaçada. Para manter a saúde do povo, é preciso curar o corpo infestado de parasitas". Os parasitas eram os judeus. O que há de científico nisso? Nada. Mas, às vésperas da ascensão de Hitler, já estava bem difícil discernir o que era ou não ciência. "Desenvolveu-se uma relação simbiótica entre ideologia e ciência. A ciência, nessa época, começou a funcionar como legitimação das idéias racistas do nazismo", diz Helmut Maier. E era essa mistura insólita que os cientistas teriam de enfrentar, se quisessem permanecer na Alemanha após 10 de janeiro de 1933, dia em que Hitler tomou o poder.



Hitler domina a ciência



Em 6 de maio de 1933, um dos mais importantes cientistas da Alemanha bateu à porta do escritório de Hitler, em Berlim. Foi bem recebido pelo führer, que ouviu com atenção sua tentativa de abrandar a perseguição a pesquisadores judeus: "Há diversos tipos de judeus, alguns valiosos e outros inúteis para a humanidade", argumentou o pesquisador. Hitler respondeu: "Se a ciência não pode passar sem judeus, teremos de nos haver sem a ciência!" E começou a berrar, falando cada vez mais rápido e tremendo de raiva. Com isso, o visitante se calou e despediu-se, desapontado. Naquele dia, Max Planck, pai da física quântica e presidente do Kaiser Wilhelm Institute (hoje Instituto Max Planck), não conseguiu o que queria: evitar a demissão do amigo judeu Fritz Haber, aquele mesmo que comandara a primeira tropa de gás da história.



Planck foi um dos cientistas que optaram por continuar na Alemanha nazista, mesmo não concordando com os ideais do novo regime. O físico Max von Laue, que costumava sair de casa com um embrulho debaixo de cada braço para não ter de fazer a saudação nazista, tomou a mesma decisão. Planck e Laue encorajavam colegas a não deixar o país, dizendo que deveriam esperar por dias melhores. Nem todos no mundo da ciência, porém, compartilhavam da mesma opinião. "A conduta dos intelectuais alemães como grupo não foi melhor que a de uma ralé", afirmou Albert Einstein a respeito da reação de seus pares ao nazismo. Einstein, que era judeu, foi criticado por Laue quando decidiu abandonar a Alemanha rumo aos EUA, em 10 de março de 1933 - um mês antes de uma lei expulsar todos os descendentes de judeus do funcionalismo público, fazendo cerca de 1000 cientistas de elite perderem o emprego. Passariam-se mais 30 dias até que universitários alemães saíssem às ruas para aplaudir as chamas que consumiram mais de 10 mil livros em praças públicas por toda a Alemanha. Se Einstein ainda estivesse no país, seria apenas um desempregado observando suas obras sobre a Teoria da Relatividade desaparecerem nas fogueiras do Reich. Mais um pouco de tempo e talvez o próprio Einstein cumprisse a profecia do poeta alemão Heinrich Heine: "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas".

Se alguns cientistas foram culpados por silenciar, outros não hesitaram em aderir ao ideário racista. Um ramo em especial aceitou com bons olhos a limpeza dos "parasitas" judeus: a medicina. Em 1933, 44,8% dos médicos alemães eram filiados ao partido nazista. Era a maior proporção de representação entre todas as profissões. Os advogados, que vinham em segundo lugar, não passavam de 25%. Além de profundamente anti-semita, a classe médica alemã era, em geral, favorável às políticas da higiene racial. Quando a lei de esterilização compulsória de doentes físicos e mentais foi lançada, em 1934, os médicos a implementaram imediatamente. Tampouco se opuseram quando a prática foi estendida à população não ariana. Com isso, mais de 350 mil pessoas foram esterilizadas à força no período de 1934 a 1945. Era a ciência ajudando a concretizar a nova sociedade sonhada por Hitler.



Mas nem todos tiveram estômago para embarcar no projeto do führer. Max Planck, por exemplo, não suportou o clima no país e deixou seu emprego em 1937. Já não estava na Alemanha quando seu filho Erwin foi executado por envolver-se num plano para matar Hitler. Seu amigo Fritz Haber teve um enfarto e morreu em 1934. Nunca soube que muitos de seus parentes seriam mortos pelo gás que ajudou a desenvolver. Na iminência das batalhas da Segunda Guerra Mundial, em 1939, apenas os cientistas considerados "mais fortes" pelos nazistas permaneceram no país. Se você pretende continuar lendo esta reportagem, saiba que, a partir deste ponto, também precisará ser forte.



Laboratórios do inferno



"Escutem, colegas, já que vocês vão matar toda essa gente, pelo menos arranquem os cérebros deles", disse, em 1939, o professor de medicina Julius Hallervorden aos encarregados da eutanásia de doentes mentais, um programa que exterminava quem recebesse dos médicos o diagnóstico de lebensunwertes leben, ou "vida indigna de viver". Foi assim que Hallervorden formou uma coleção que, em 1944, contava com 697 cérebros. Entre seus favoritos, estava o de uma menina cuja mãe fora envenenada acidentalmente por gás enquanto estava grávida.

August Hirt, médico da Universidade de Estrasburgo (então na Alemanha, hoje na França), não queria só cérebros, mas cabeças inteiras. E não poderiam ser entregues quaisquer cabeças, tinham de ser de judeus. Logo ele percebeu que, se conseguia cabeças sem problemas, por que não pedir corpos inteiros? Encomendou 115 prisioneiros a Auschwitz, que foram prontamente executados em junho de 1943 e enviados para Estrasburgo. Em agosto, chegou outro carregamento com cerca de 80 cadáveres, todos usados para estudos sobre a superioridade anatômica do povo ariano.



Mas médicos como Hirt e Hallevorden ainda não tinham as mesmas possibilidades que Sigmund Rascher, responsável pelo campo de concentração de Dachau: usar cobaias humanas vivas. "Sou, sem dúvida, o único que conhece por completo a fisiologia humana, porque faço experiências em homens e não em ratos", costumava dizer com orgulho aos colegas. Rascher era admirado e protegido por Himmler, entusiasta das pesquisas "científicas" a ponto de assistir aos terríveis experimentos em câmaras de baixa pressão, para os quais forneceu prisioneiros em maio de 1941. Das cerca de 200 cobaias que passaram pelas câmaras de pressão até maio de 1942, 80 morreram durante os testes. Algumas tiveram o cérebro dissecado enquanto ainda estavam vivas para que o médico pudesse observar as bolhas de ar que se formavam nos vasos sanguíneos. Em seguida, Rascher começou as experiências sobre hipotermia. Era ele o médico responsável pelo experimento com os soldados russos do início desta reportagem.



Rascher foi um dos pioneiros entre os 350 médicos que oficialmente se envolveram em experiências nos campos de concentração. Se considerarmos o número de pacientes assassinados, Rascher não foi páreo para o mais sanguinário dos doutores de Hitler: Joseph Mengele, cujas experiências foram responsáveis pelo extermínio de 400 mil pessoas em Auschwitz. Mengele injetou tinta azul em olhos de crianças, uniu as veias de gêmeos, jogou pessoas em caldeirões de água fervente, amputou membros de prisioneiros, dissecou anões vivos e coletou milhares de órgãos em seu laboratório. Depois da guerra, conseguiu escapar e viveu escondido no Brasil até sua morte, em 1979. Oficialmente, comprou sua fuga com anéis de casamento e dentes de ouro que retirava dos cadáveres. Segundo o cientista alemão Benno Müller-Hill, a história não é bem essa. "Muito embaraço teria sido causado se ele tivesse revelado para onde mandou o material humano", diz o autor de Murderous Science ("Ciência Assassina", sem tradução em português), livro precursor da nova onda de estudos sobre a ciência nazista.



Se você chegou até aqui, deve estar há algum tempo com uma questão incômoda: "O que se passava na cabeça desses médicos?" O psiquiatra Robert Lifton tem uma teoria a respeito: um processo psicológico que chamou de doubling. "O doubling é a dissociação do eu, que leva à formação de uma espécie de segundo eu", diz. Professor de Harvard e autor de The Nazi Doctors ("Os Doutores Nazistas", sem tradução em português), Lifton percebeu as características do doubling em muitos dos "doutores" que entrevistou para seu livro. Na rua, eram éticos, carinhosos e respeitadores. Nos campos de concentração, monstros. "Eles falavam do que fizeram sem envolvimento emocional, como se estivessem narrando os atos de outra pessoa", diz.

O horror nazista transformava a mente dos médicos. Mas e as vítimas? Na tentativa de entender o trauma causado pelas experiências, a Super procurou em São Paulo a judia polonesa Bluma Reicher, de 83 anos. Ao ouvir um pedido para descrever as cirurgias a sangue-frio pelas quais passou em Auschwitz há mais de 60 anos, a única resposta que Bluma deu foram lágrimas. A entrevista acabou aí.



Karl Hoellenrainer, um cigano, respondeu de outra maneira. Ao encontrar no tribunal de Nuremberg o homem que o obrigou a tomar água salgada por 4 semanas e depois arrancou pedaços do seu fígado, sacou uma adaga e pulou o balcão que separava testemunhas e réus. Queria matar seu algoz ali mesmo. Não teve sucesso e foi sentenciado no mesmo dia, 27 de junho de 1947, a 3 meses de prisão.



A exposição de tantos atos desumanos cometidos deixa a impressão de que, em pleno século 20, o nazismo levou a ciência de volta à idade das trevas. Até bem recentemente, era exatamente essa a visão que a maioria dos historiadores tinha do período. Novos estudos, porém, estão revelando a realidade muito mais complexa que se escondia sob um manto de atrocidades e absurdos científicos.



Outra visão



Naquela cidade, era preciso paciência para conseguir acender um cigarro. O fumo estava proibido em todas as áreas públicas, incluindo escritórios e salas de espera. No trem, havia risco de multa para quem não prestasse atenção e puxasse um isqueiro no vagão de não-fumantes. Até dentro do próprio carro era arriscado fumar. Se um guarda sentisse cheiro de fumaça em um automóvel envolvido numa batida, o dono poderia ir direto para a cadeia. Apesar de uma certa semelhança com as metrópoles atuais, a cidade em questão é a Berlim da década de 1940. E as medidas antitabagistas, só comparáveis às existentes nos nossos dias, foram implementadas pelos nazistas, os únicos que tinham acesso ao conhecimento científico necessário para desenvolvê-las.



"Os nazistas foram os primeiros a fazer estudos estatísticos rigorosos que provaram a relação entre o hábito de fumar e o câncer de pulmão", afirma Robert Proctor, historiador da ciência e professor da Universidade Stanford, nos EUA, e autor de The Nazi War on Cancer ("A Guerra Nazista contra o Câncer", sem tradução em português). É uma ironia que a origem de uma das maiores descobertas médicas do século 20 esteja relacionada a um efeito psicológico da doutrina de higiene racial. A esse efeito Proctor deu o nome de paranóia homeopática. "Os nazistas tinham pavor de agentes minúsculos que poderiam corromper o corpo alemão. Eram obcecados por ar limpo, comida natural e um estilo de vida saudável." E foi justamente a obsessão que empurrou a ciência alemã em direção aos mais avançados estudos anticâncer. "O mesmo fanatismo que nos deu Mengele também nos deu a preciosa pesquisa antitabagista. A verdade é que a política científica nazista foi muito mais complexa que a maioria das pessoas imagina."



Proctor não é exatamente uma unanimidade no mundo científico. Pelo contrário. Pesquisadores com muitos anos de experiência contestam os resultados de seus estudos sobre a ciência nos tempos de Hitler. "Proctor afirma que os nazistas fizeram boa ciência, ainda que com propósitos malignos. Isso é uma bobagem. Tenho estatísticas em meus livros que mostram que os nazistas não chegaram nem perto de derrotar o câncer. Na época em que as publiquei, Proctor ainda era um bebezinho recém-saído das fraldas", diz o historiador Michael Kater. O professor de Stanford, porém, está longe de ser um acadêmico isolado por seus pares. Matérias favoráveis a respeito de seu trabalho foram publicadas nas conceituadas revistas científicas Nature, Science e New Scientist. Proctor acredita que a visão que se tem do nazismo ainda é simplificadora e estereotipada. "A ciência nazista tem de ser estudada em toda a sua complexidade", afirma.



Lançar um novo olhar sobre a ciência alemã no período nazista foi exatamente o objetivo do mais ambicioso projeto histórico já feito pela Sociedade Max Planck, que controla 80 dos mais importantes institutos de pesquisa da Alemanha. O resultado do estudo, que consumiu mais de 6 anos de trabalho, foi divulgado no ano passado e chacoalhou tudo que sabíamos a respeito da ciência nazista. A antiga tese de que os laboratórios eram controlados por um punhado de monstros impiedosos e desumanos, que não produziram nenhum conhecimento valioso para a humanidade, caiu por terra. A nova pesquisa revelou que muitos dos então melhores cientistas da Alemanha viram o regime nazista não como uma ameaça, mas como uma oportunidade de adquirir status pessoal e financiamento para seus estudos. Para isso, eles deliberadamente procuraram fazer ciência sobre os temas que mais interessavam aos chefões nazistas e se engajaram em experimentos antiéticos que seguiam rigorosamente as regras dos métodos científicos mais avançados da época. O estudo da Sociedade Max Planck provou que as fronteiras que separaram os cientistas comuns dos torturadores nos campos de concentração não são tão claras e ressuscitou um espinhoso dilema que permanece em aberto na comunidade científica internacional: o que fazer com os resultados obtidos nas experiências?



Dados da discórdia



"Eu não queria ter de usar os dados nazistas. Mas não existem outras opções para a minha pesquisa. Nem nunca existirão num mundo ético", diz o médico John Hayward, da Universidade de Victoria, no Canadá, que estuda os efeitos do frio no corpo humano. Apesar da defesa contundente de Hayward, a validade científica dos experimentos que ele usou é criticada por alguns pesquisadores. "Os dados são péssimos. Não havia livros de controle, métodos estatísticos nem repetição de experimentos em condições similares. Eles não têm uso nenhum para a ciência", afirma Michael Kater, reconhecidamente uma das maiores autoridades mundiais no assunto. Robert Lifton, que entrevistou os doutores nazistas, também diz ter razões para duvidar da validade das experiências. Mesmo assim, defende sua utilização pela ciência. "Os médicos nazistas usavam como assistentes prisioneiros do campo, gente muito mais preocupada com a própria sobrevivência do que com a acuidade das pesquisas", diz. "Mas qualquer dado que sirva para poupar sofrimento humano deve ser usado."



Mas afinal, que dados são esses? Robert Proctor dá um exemplo: "Todos os coletes salva-vidas hoje em dia são desenhados para aquecer o pescoço justamente porque os nazistas provaram que isso aumenta as chances de sobrevivência dos náufragos em água gelada".



Outro caso polêmico envolveu a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). Em 1989, seus especialistas foram chamados a definir regras para a utilização do fosgênio, um gás tóxico usado na fabricação de plásticos e pesticidas. O problema é que não havia estudos detalhados sobre o efeito do fosgênio em humanos - os únicos dados conhecidos sobre o assunto foram produzidos em experiências nazistas durante a Segunda Guerra. Entre utilizar essas pesquisas e arriscar a vida da população americana com uma legislação perigosa, a EPA não hesitou em escolher a segunda opção.



Mas há razão para descartar sumariamente os dados? Segundo um editorial do jornal científico Nature, não deveríamos decidir precipitadamente. "O estudo da Sociedade Max Planck descobriu que grande parte das pesquisas mais criminosas conduzidas pelos nazistas não era pseudociência - na verdade, elas seguiam métodos científicos tradicionais e estavam na vanguarda dos estudos produzidos no período." Dentro dessa revisão histórica e metodológica das pesquisas, não estão excluídas nem as do médico mais sanguinário que já passou pela face da Terra. "Agora ficou claro o que os relatos macabros que demonizaram Mengele tendiam a encobrir: seus experimentos não eram baseados em puro sadismo, e sim em interesses científicos que, levando-se em consideração os conhecimentos da época, não eram totalmente implausíveis", afirma a alemã Susanne Heim, líder do estudo da Sociedade Max Planck.



Se ainda não há unanimidade em tor-no da criteriosa pesquisa nazista sobre o câncer, é compreensível que o uso dos dados obtidos de maneira antiética continue sendo polêmico. Mas negar a existência de progressos científico no período nazista não parece ser uma atitude que vá contribuir para uma melhor compreensão da história. Olhar para o lado positivo, se é que ele existe, do período mais desumano pelo qual a ciência já passou é difícil para nós, que vivemos 60 anos depois de todas essas pesquisas macabras. Que dizer, então, para pessoas que passaram a vida debruçadas em estudos exaustivos sobre as atrocidades ou convivendo diariamente com os traumas que elas deixaram. "Não há ciência no inferno de Dante", diz o historiador Michael Kater. Mas talvez, por mais duro que seja, tenhamos de admitir que existiu ciência mesmo no inferno. Se isso acontecer, será preciso refletir sobre uma nova e inquietadora questão: é justo usarmos o sofrimento de Bluma Reicher e dos milhares que passaram pelas mãos dos doutores de Hitler para tentar evitar que mais pessoas sofram no mundo de hoje? Para essa pergunta, infelizmente não existe fórmula, equação, experimento ou qualquer outro meio científico de obter uma resposta exata.
O papel das humanidades na medicina

Em um texto memorável sobre a vida e a obra de D. Gregorio Marañón, introduzindo os volumes de suas obras completas, o médico e historiador Pedro Laín Entralgo, ao buscar os fundamentos da visão da patologia em Marañón, identifica o que, em sua opinião, apresenta-se como as cinco fontes do saber médico na obra do eminente endocrinologista espanhol.1 São elas:

1. a clínica, ou seja, o conhecimento da realidade do paciente. “Desde el coloquio que nos introduce en la intimidad del paciente, hasta el análisis que nos revela la composición química del plasma, passando, como es obvio, por los métodos de la semiologia más clássica y tradicional: inspección, palpación, percusión y ascultación”;2

2. a anantomia patológica entendida não apenas como “simple recopilación inerte de los datos que la bibliografia ofrece”, mas também como fruto da investigação direta e pessoal;

3. a fisiopatologia tanto clínica quanto experimental;

4. a etiologia em seu sentindo mais amplo, envolvendo não apenas os aspectos estritamente biológicos como também os biográficos;

5. a literatura, a arte e a experiência extramédica da vida, que, para Marañón, tem uma importância tão grande quanto as outras fontes, à medida que é na fonte das humanidades em que o clínico encontra algo de fundamental ao bom exercício da prática médica: intuições sobre a vida humana. Isso porque, “cuando el médico ve en el enfermo al hombre que hay en él, y no sólo el estómago o la cápsula suprarenal que en él están alterados, por necessidad hay de volver de cuando sus ojos a los ‘especialistas en vida humana’, y estos són, junto a los psicólogos de oficio, y a veces muy sobre ellos, los pensadores y los artistas...”.3

E acrescentando com palavras do próprio Marañón: “Tal vez se nos reproche el excessivo uso que hacemos de los ejemplos literarios. Lo hacemos así por creerlos tan instructivos como las descripciones de los médicos. El artista recoge sus impresiones directamente de la realidad, sin los prejuicios científicos que restan valor humano a las observaciones médicas... Por ello hemos de acudir a los grandes artistas, que son los psicólogos supremos...Hoy podemos estudiar los sentimentos humanos en las comedias de Shakespeare mucho mejor que en el Tratado de las pasiones, de Descartes. No hay que ser el príncipe que todo lo aprendió en los libros, pero tampoco el hombre que lo aprendió todo en la vida”.4

Todas essas considerações sobre o papel da literatura, das artes e, enfim, das humanidades no saber médico derivam, sem dúvida, de uma visão muito particular desse mesmo saber.

Gregorio Marañón, que nasceu em Madrid em 1887 e morreu nessa mesma cidade em 1960, foi um dos principais defensores e sistematizadores da medicina personalista, ou seja, da medicina baseada na pessoa.5 Para ele, a pessoa ou indivíduo se apresenta na medicina sempre como o primeiro, o principal, “el patrón y el molde al cual se ajusta la enfermidad”.

“El problema de cada paciente es, pues – afirma o médico espanhol – como el producto de las cantidades, una de valor conocido, que es la enfermedad misma, la tifoidea, la diabetes, la que sea, y outra de valor eminentemente variable, que es la constituición del organismo agredido por la enfermedad”. Dessa forma, a doença “no es sólo la inflamación o el deterioro de tal o cual órgano, sino todo esse mundo de reacciones nerviosas del sujeto enfermo, que hace que la misma úlcera de estómago, por ejemplo, sea una enfermedad completamente distinta en un segador y en un professor de Filosofia.”6 Nesse sentido, a “investigação” do doente requer, antes de tudo, a história rigorosa, não só clínica, mas biográfica do paciente, necessária não só para compreender a doença, como para “atar al paciente a la legítima sugestión del médico”.

Essa visão da medicina centrada no indivíduo, na pessoa – sem, é claro, desmerecer ou desconsiderar o igual papel representado pela etiologia – acaba exigindo, portanto, um saber diferenciado do saber especificamente físico-biológico. Trata-se do saber humanístico. Saber cujas principais fontes estão, como bem colocava Marañón, na literatura, na arte e na experiência extramédica da vida. Como o patologista, especialista em doenças, o médico humanista deve recorrer ao artista, ao filósofo (especialistas em vida humana), se quiserem exercer uma medicina verdadeiramente humana e eficaz.

Durante boa parte da história da medicina, o saber humanístico se constituiu em fonte quase exclusiva do saber médico. Isso só começou a mudar a partir do século XIX, quando o desenvolvimento das ciências biológicas, em confluência com a física, a química e a matemática, determinou uma reorganização do saber médico que, paulatinamente, foi desconsiderando as fontes das humanidades.7 Desde então, foram muitos os que alertaram o perigo da desumanização do saber médico e da medicina como um todo, porém esse processo de “cientificação”ou “biologização” acabou prevalecendo, principalmente a partir da segunda metade do século XX.

Gregorio Marañón, a meu ver, foi um dos primeiros “modernos” não só a fazer uma crítica pós-romântica do paradigma médico contemporâneo como também foi um dos poucos a resistematizar o saber médico por meio da reincorporação das humanidades, sem deixar de considerar e valorizar as conquistas das outras ciências agora chamadas médicas ou da saúde.8

Toda essa crítica e resistematização parecem encontrar uma especial ressonância atualmente, à medida que a questão do humanismo e da humanização da medicina aparece como um dos grandes temas do momento.

Nunca como hoje, acredito, falou-se tanto da necessidade de humanizar a medicina e o ensino médico, porém, diretamente proporcional é a confusão e o desconhecimento que existe sobre o que é humanismo e o que vem a ser humanizar a medicina. Nesse sentido, a releitura da obra de Marañón aparece como uma iniciativa altamente útil no esforço, por definir e sistematizar o resgate do humanismo no saber médico, assim como indicar os caminhos para uma efetiva humanização da prática e do ensino médico.

É dentro desse contexto, portanto, que se retorna a discussão sobre o papel das artes ou, num sentido mais genérico, das humanidades no saber e na prática médica.

Para Marañón, o recurso da literatura, das artes e da filosofia se apresenta como fundamental para o desenvolvimento de uma medicina que se quer cada vez mais integral, holística, personalista. Isso porque é por meio das humanidades que se pode chegar a um conhecimento mais abrangente e preciso da realidade humana, da vida pessoal e individual. As artes e as humanidades – literatura, filosofia e história – são como “janelas” ou antes “bisturis” que possibilitam adentrar no íntimo da alma humana, no âmago da vida pessoal e individual, que afinal é o principal para o saber médico. Além dissso, as artes, a literatura e a história costumam ser despertadores privilegiados do interesse e do amor pelo humano que, para Marañón, são a base da autêntica vocação médica.9 Segundo ele, sua própria vocação para a medicina nasceu principalmente do interesse10 pelo ser humano, pessoal, individual, que surgiu, dentre outras coisas, da leitura dos clássicos da literatura e da historiografia.11

De fato – não é só na visão de Marañón –, a verdadeira obra de arte tem um incrível poder mobilizador. Possui a capacidade de criar empatia, gerar crises, provocar mudanças que são essenciais ao processo da humanização da pessoa que se realiza como indíviduo, seja um médico, um estudante de medicina, um técnico, um engenheiro ou o que for. Isso porque, como bem coloca Alfonso López Quintás, ao discorrer sobre o papel da análise literária na formação humana, uma obra de arte “no es un objeto sino un ámbito de realidad; no narra hechos sino expresa acontecimentos; no muestra sólo el significado de las acciones, sugiere además su sentido; no describe objetos, nos hace asistir más bien a procesos de entreveramiento de ámbitos que dan lugar a otros ámbitos o los destrueyen”.12

Em suma, “una obra literaria (obra de arte) no es um medio para comunicar el autor determinadas experiencias. Es el medio en el cual realiza él mismo tales experiencias.” Conseqüentemente, conclui o autor, “interpretar una obra se reduce a verla desde fuera y hacerse cargo de lo que en ella acontece. Significa entrar en juego com ella, rehaciendo personalmente sus experiencias clave. En la base de toda obra de calidad se hallan una o varias experiencias que impulsan la acción y le dan sentido. Al vivirlas por propia cuenta el lector, se iluminan em su interior las intuiciones fundamentales que impulsaron la génesis de la obra. A esta luz puede muy bien realizar uma lectura genética de la misma, leerla como si volviera a gestar, y compreender así todos sus pormenores, hasta el vocablo más aparentemente anodino.”13

Ou seja, em uma verdadeira obra de arte, seja literária, cinematográfica ou teatral, não só o autor, mas também o leitor (espectador, ouvinte etc) são convidados a realizar experiências que se geram na obra, levando-o, assim, a recriar e a reviver de maneira única e pessoal essas mesmas experiências, desencadeando um processo altamente fecundo no indivíduo que se envolve nessa leitura genética da obra.

Sem dúvida, isso pressupõe método e orientação que, ao propiciar esse tipo de leitura ou fruição, proporcionam, além do envolvimento emocional e existencial do leitor/fruidor, seu envolvimento reflexivo ou sapiencial, ou seja, a capacidade de tirar lições, de aprender com a obra e de traduzir tais ensinamentos em conduta, em praxis vivencial.

Mais uma vez, aproximando-se da visão de Marñón, ao definir humanismo, ele o faz atrelando-o mais ao mundo do vivencial do que meramente intelectual: “El humanismo es mucho más gesto y conducta que, en su sentido estricto, saber”, afirma em um prefácio para um livro sobre história da tuberculose, intitulado “Enciclopedismo y Humanismo”.14

Sem dúvida, a leitura dos clássicos – não qualquer leitura, bem entendida – e a fruição de obras cinematográficas, teatrais e históricas sempre foram e continuam sendo o caminho mais adequado para uma iniciação no processo de formação e desenvolvimento pessoal humano. Não se pode postular um humanismo ou uma humanização que não passe pela experiência profunda da obra de arte, seja ela qual for. O que se faz necessário atualmente, dentro do contexto da formação médica, é não apenas o reconhecimento do papel das humanidades nesse processo, mas também é fundamental o reconhecimento da precisão teórica e metodológica do “ensino” e da incorporação desse saber humanístico no universo das ciências da saúde, em geral, e da medicina, em particular. Se o humanismo não pode ser confundido com simples erudição ou “enciclopedismo”, ele também não pode ser reduzido à simpatia e aos bons sentimentos. Humanismo, que é “mucho más gesto y conducta” que “saber”, não surge de “cosas radicalmente inventadas” – citando Don Gregorio Marañón – sino en cosas nacidas del pasado, del pasado fecundo...”.15 Reconciliar passado, presente e futuro é o primeiro passo para pensar em uma retomada verdadeira e eficaz do ensino de humanidades na formação dos médicos, assim como na redefinição dos paradigmas do saber médico contemporâneo.